O agalma é o objeto que o sujeito supõe ser o que falta ao Outro, o que o torna desejável e admirável. O agalma é o que preenche a falta do Outro, mas também a revela. O agalma é o que faz o sujeito se identificar com o Outro, mas também o que o diferencia dele. O agalma é, portanto, um objeto paradoxal, que ao mesmo tempo oculta e manifesta a falta. É a “falta” no conceito de agalma, que estabelece o desejo do Outro e a fantasia do sujeito.

A falta no conceito de agalma pode ser entendida de duas formas: como significante da falta e como falta do significante. O significante da falta é aquele que representa a ausência de algo que se deseja, como por exemplo, o falo na castração. O significante da falta é um significante simbólico, que remete a uma cadeia de significantes. Já a falta do significante é aquela que indica a impossibilidade de representar algo que se apresenta como real, como por exemplo, o gozo na experiência analítica. A falta do significante é uma falta real, que escapa à simbolização.
Lacan introduz o conceito de agalma no Seminário 8, sobre a transferência, tendo como referência O Banquete de Platão. Nesse texto, Lacan analisa os discursos dos personagens sobre o amor e destaca o papel do agalma como objeto do desejo. O agalma é definido como “aquilo em virtude do qual se ama alguém” (LACAN, 1960-61/1992, p. 139). O agalma é aquilo que faz com que um sujeito se apaixone por outro, aquilo que ele vê nele como sendo sua essência, seu valor, seu brilho. O agalma é aquilo que sustenta a ilusão amorosa e a idealização do Outro.
No entanto, Lacan mostra que o agalma não é uma substância fixa e estável, mas sim um objeto variável e contingente. O agalma pode mudar de acordo com o contexto, com a época, com a cultura, com o discurso. O agalma pode ser uma qualidade física, intelectual, moral, artística ou qualquer outra coisa que o sujeito atribui ao Outro como sendo sua singularidade. O agalma pode ser também um objeto parcial, como o seio, a voz, o olhar ou o falo. O agalma pode ser ainda um objeto imaginário ou simbólico.

O importante é notar que o agalma não é algo que pertence ao Outro em si mesmo, mas sim algo que o sujeito projeta nele a partir de sua própria fantasia. O agalma é um objeto fantasmático, que encobre a falta do Outro e que serve de suporte para a identificação do sujeito. O agalma é um objeto que causa o desejo do Outro e que motiva o sujeito a se oferecer como dom ao Outro. O agalma é um objeto que coloca em jogo a dialética entre dar e receber, entre ter e ser.
No Seminário 9, sobre a identificação, Lacan desenvolve ainda mais o conceito de agalma e introduz o termo objeto a para designar o objeto causa do desejo. O objeto a é aquele que está no lugar da falta do Outro e que determina o desejo do sujeito. O objeto a é aquele que escapa à representação simbólica e que se situa no campo do real. O objeto a é aquele que produz um vazio no Outro e que abre a possibilidade de uma relação com esse vazio.

O objeto a é também aquele que está na origem da divisão subjetiva e que marca a posição do sujeito no campo do Outro. O objeto a é aquele que faz com que o sujeito se interrogue sobre quem ele é para o Outro e sobre o que ele quer do Outro. O objeto a é aquele que coloca em questão a identidade e a alteridade do sujeito.
Conclui-se que o papel da falta no conceito de agalma é essencial para compreender a dinâmica do desejo e da transferência na psicanálise. A falta é o que impulsiona o sujeito a buscar o Outro, a se identificar com ele, a se oferecer a ele, a se separar dele. A falta é o que faz com que o sujeito se depare com o real do gozo e com o limite da linguagem. A falta é o que faz com que o sujeito se constitua como um ser desejante e como um ser falante.
Via:
Banquete de Platão: uma revisita à transferência em lacan1
O desejo do psicanalista e sua implicação na transferência segundo o ensino de Jacques Lacan 5
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652013000200004