Magallânica, ou a Terra Austral Desconhecida (latim) é um termo histórico que se refere a uma hipotética massa terrestre que cartógrafos e exploradores europeus dos séculos XVI e XVII acreditavam existir no hemisfério sul. Essa ideia surgiu da crença de que deveria haver um grande continente no sul para equilibrar as massas terrestres do hemisfério norte, de acordo com a teoria do equilíbrio da Terra.
1570 map by Abraham Ortelius depicting Terra Australis Nondu Cognita (transl. The southern land yet not known) as a large continent on the bottom of the map.
A ideia da Terra Australis Incognita remonta à antiguidade clássica, com pensadores como Aristóteles e Ptolomeu, que especulavam sobre a existência de uma grande terra no sul. Durante a era das descobertas, essa ideia foi revitalizada, especialmente depois que Fernão de Magalhães descobriu o estreito que leva seu nome (1520) e sugeriu-se que as terras ao sul do estreito poderiam ser parte desse continente desconhecido.
This map is the first map to focus solely on the South Pole. It depicts the huge continent, labeled Magallanica sive Terra Australis Incognita, incorporating Terra de fuogo, Psittacorum Regio, Promontorium terrae australis, and Beach Provinica and is nearly joined with New Guinea and the Salomon Islands. A small ship, sea monster and two compass roses decorate the tiny map. 1616 (circa)
Ao longo dos séculos XVI e XVII, muitos mapas, como os de Gerardus Mercator e Abraham Ortelius, incluíram a Terra Australis como uma grande massa continental que abrangia o Polo Sul. No entanto, expedições posteriores, como as de James Cook no século XVIII, demonstraram que tal continente não existia nas dimensões imaginadas. Em vez disso, foram descobertas a Austrália, a Antártica e outras ilhas menores, mas nenhuma delas correspondia à vasta terra descrita nos mapas antigos.
L.E.Geara – jan/2025
Finalmente, no século XIX, confirmou-se a existência da Antártica, o verdadeiro continente austral. Embora não fosse a Terra Australis imaginada pelos antigos, a Antártica tornou-se o último grande descobrimento geográfico da humanidade.
O termo Magallanica está especificamente associado às explorações da região do Estreito de Magalhães e das terras ao sul, enquanto Terra Australis Incognita representa mais uma ideia filosófica e cartográfica. Hoje, esses termos são lembrados como parte da rica história da exploração e da cartografia, e como um testemunho de como mitos e teorias impulsionaram os exploradores a descobrir novos mundos.
A obra de Jean-François Lyotard desenvolve uma crítica profunda e multifacetada à visão de Jacques Lacan sobre o signo, dirigindo-se principalmente contra dois pontos centrais: a tese de que o inconsciente seria “estruturado como uma linguagem” e o que Lyotard denomina “imperialismo do conceito”. Essa crítica, longe de se limitar a um debate interno à psicanálise, coloca em questão os próprios fundamentos da relação entre linguagem, desejo e representação.
O sonho não é um discurso
Lacan, herdeiro do estruturalismo, defende que os processos primários do inconsciente operam de maneira análoga aos mecanismos linguísticos. Lyotard contesta radicalmente essa posição ao afirmar que o sonho não constitui um discurso. O “trabalho do sonho” (dream-work) não obedece às mesmas regras da fala: ele não pensa, mas transforma e desfigura. Ao reduzir o inconsciente à estrutura da linguagem, Lacan ignoraria a dimensão energética do desejo — sua força pulsional — e, com isso, estaria, nas palavras de Lyotard, “matando” tanto a arte quanto o sonho.
Metáfora, metonímia e o mal-entendido do trabalho do sonho
Lyotard realiza uma análise técnica minuciosa da apropriação que Lacan faz das categorias de Roman Jakobson (metáfora e metonímia) para explicar os mecanismos freudianos de condensação e deslocamento. Para Lyotard, a identificação lacaniana da condensação com a metáfora é problemática: a condensação freudiana opera como um processo espacial de compressão, tratando as palavras como “coisas” e transgredindo, assim, as regras do sistema linguístico. O deslocamento, por sua vez, não se reduz à metonímia sem que se percam aspectos essenciais do funcionamento inconsciente.
A barra de significação entre Saussure e Lacan
No algoritmo lacaniano, a barra que separa significante (S) e significado (s) representa a repressão ou a censura. Lyotard critica essa interpretação ao lembrar que, para Saussure, a relação entre significante e significado era marcada pela transparência e pela indissociabilidade no interior da experiência concreta da fala. Lacan estaria, portanto, confundindo dois planos distintos: o da significação, que se define como valor linguístico dentro de um sistema fechado, e o do sentido (sens), que possui uma profundidade própria, marcada pelo jogo entre esconder e revelar.
Signo semiótico e tensor: do niilismo à intensidade
Em Economia Libidinal, Lyotard classifica o signo semiótico — tal como empregado tanto por Saussure quanto por Lacan — como niilista e religioso. A semiótica lacaniana, ao concentrar-se exclusivamente no conceito, negaria a importância do material, do corporal e do sensível. Além disso, a ideia de que o sentido é infinitamente adiado em uma cadeia de referências constitui, para Lyotard, a expressão máxima do niilismo.
Em contraposição a esse modelo, Lyotard propõe a noção de tensor. Diferentemente do signo comum, o tensor não produz apenas significação por oposição, mas também intensidade por força e singularidade. O tensor incorpora a dimensão da força que escapa à lógica puramente diferencial do significante.
A repressão do sensorial e do figurativo
Por fim, Lyotard sustenta que a visão lacaniana promove uma repressão do sensorial e do gozo (jouissance). Enquanto Lacan privilegia o significante linguístico, Lyotard toma o partido do “olho” e da imagem. A figurabilidade, argumenta ele, possui funções que Lacan se recusa a admitir — entre elas, a capacidade de substituir um significado por um de seus designados (objetos), rompendo assim com o fechamento do sistema linguístico.
Para Lyotard, o equívoco fundamental de Lacan reside na tentativa de colocar a linguística a serviço da psicanálise de maneira tão absoluta que acaba por apagar a espessura figurativa e a intensidade libidinal. Essas duas dimensões — a espessura da imagem e a intensidade pulsional — são, para Lyotard, as verdadeiras marcas do desejo e da arte, e sua exclusão compromete irremediavelmente qualquer teoria psicanalítica que pretenda dar conta da singularidade do inconsciente.
Repercussão
A crítica de Lyotard a Lacan suscitou um debate rico e polarizado: enquanto os lacanianos veem nela um mal-entendido fundamental, outros a consideram um avanço teórico importante na direção de uma reconsideração do papel da imagem, da figura e da intensidade sensível na experiência psíquica, ainda que não isenta de problemas próprios.
Um dos principais pontos de crítica à posição de Lyotard é que ele teria interpretado a tese do “inconsciente estruturado como uma linguagem” de maneira excessivamente literal. Para Lacan, a analogia com a linguagem não significa que o inconsciente seja idêntico à língua tal como descrita pela linguística saussuriana, mas sim que ele obedece a uma lógica similar à do significante — uma lógica de diferença, deslocamento e condensação que, justamente, escapa à transparência do significado. Ao insistir que o sonho “não é um discurso”, Lyotard estaria, segundo essa crítica, desconsiderando o caráter fundamentalmente metafórico da proposição lacaniana.
Além disso, alguns comentadores argumentam que Lyotard, em sua defesa do “tensor” e da intensidade libidinal, acaba por reintroduzir uma forma de dualismo entre o energético e o simbólico que a própria psicanálise lacaniana procurou superar. Para Lacan, o gozo (jouissance) não está do lado de fora do significante — ele é, ao contrário, aquilo que o significante simultaneamente possibilita e interdita. A “barra” criticada por Lyotard seria justamente o que torna o desejo possível, e não um mero obstáculo epistemológico.
De maneira mais ampla, a própria tentativa de Lyotard de fundar uma “economia libidinal” que escapasse à semiótica estruturalista foi vista por alguns como uma recaída em certo naturalismo ou em uma metafísica da força que a filosofia crítica deveria justamente desconstruir.
A prudência é uma velha donzela feia cortejada pela incapacidade. Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.
A minhoca cortada perdoa o arado. Mergulha no rio quem ama a água. Um tolo não vê a mesma árvore vista por um sábio.
Aquele cuja face não tem luz nunca se tornará uma estrela.
A eternidade está apaixonada pelas produções do tempo. A abelha ocupada não tem tempo para a tristeza. As horas de tolice são medidas pelo relógio, mas as de sabedoria, nenhum relógio pode medir.
Toda comida saudável é apanhada sem rede ou arapuca. Ressalte os números de peso e medida em um ano de escassez.
Nenhum pássaro voa alto demais, se voa com as próprias asas. Um corpo morto não se vinga de ofensas.
O mais sublime ato é por outro antes de você. Se o tolo persistisse em sua tolice, ele se tornaria sábio. A tolice é o disfarce da patifaria. A vergonha é o disfarce do Orgulho.
As prisões são construídas com pedras da Lei, os Bordéis, com tijolos da Religião.
O orgulho do pavão é a glória de Deus.
A luxúria do bode é o prêmio de Deus.
A ira do leão é a sabedoria de Deus.
A nudez da mulher é o trabalho de Deus.
William Blake’s portrait, 1698 Thomas Phillips RA (1770 – 1845)
Excesso de tristeza ri. Excesso de alegria chora.
O rugir dos leões, o uivar dos lobos, a riria do mar tempestuoso e a espada destrutiva são porções de eternidade grandes demais para o olho do homem.
A raposa condena a armadilha, nunca a si mesma.
A alegria fecunda. A tristeza produz.
Deixe o homem vestir a pele de leão, a mulher, a lã de ovelha.
O pássaro, um ninho. a aranha, uma teia; o homem, a amizade.
O que agora está provado já havia sido imaginado.
O rato, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes, o leão o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.
A cisterna contém; a fonte transborda.
Um pensamento preenche a imensidão.
Pense de manhã. Aja à tarde. Coma ao anoitecer. Durma à noite.
Aquele que sofreu, você impõe que o conheça. Assim como o arado segue palavras, Deus recompensa as orações. Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução. Espere veneno da água parada.
A macieira nunca pergunta à faia como deve crescer; nem o leão, ao cavalo, como deve apanhar sua presa.
The Virgin Hushing the Young John the Baptist (1799) – William Blake
PROVÉRBIOS DO INFERNO
Como o ar para um pássaro ou o mar para um peixe, assim é o desprezo para um desprezível.
Os antigos poetas animaram todos os objetos sensíveis com deuses ou Gênios, chamando-os por nomes e adornando-os com as propriedades de florestas, rios, montanhas, laços, cidades, nações e o que quer que seus aumentados e numerosos sentidos podiam perceber. E particularmente, eles estudaram o gênio de cada cidade e pais, colocando-os sob sua deidade mental;
Assim um sistema se formou, do qual alguns tiraram vantagem e escravizaram o vulgo tentando compreender ou abstrair as deidades mentais de seus objetos; assim começou o Sacerdócio; Escolhendo formas de adoração em textos poéticos. E finalmente proclamaram que os Deuses ordenaram tais coisas. Assim o homem esqueceu que Todas as deidades residem no peito humano.
„Laßt uns dem ewigen Geiste vertrauen, der nur zerstört und vernichtet, weil er der unergründliche und ewig schaffende Quell alles Lebens ist. Die Leidenschaft der Zerstörung ist zugleich eine schaffende Leidenschaft!“
Trecho final de Die Reaktion in Deutschland (1842) de Mikhail Bakunin
Confiemos no espírito eterno, que só destrói e aniquila porque é a fonte insondável e eternamente criadora de toda a vida. A paixão da destruição é, ao mesmo tempo, uma paixão criadora.
“Destruição” não é mero niilismo, mas momento necessário da dialética histórica herdada de Hegel: o “negativo” que aniquila o “positivo” envelhecido para que uma nova forma de vida social possa emergir. A destruição do velho Estado e da ordem estabelecida é apresentada como condição para o surgimento de uma liberdade efetiva e de novas instituições.
La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres. Fuir ! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres D’être parmi l’écume inconnue et les cieux ! Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe Sur le vide papier que la blancheur défend Et ni la jeune femme allaitant son enfant. Je partirai ! Steamer balançant ta mâture, Lève l’ancre pour une exotique nature !
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs, Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs ! Et, peut-être, les mâts, invitant les orages, Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots … Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots !
Stéphane Mallarmé (1842-1898)
photo by L.E.Geara
Brisa marinha (Brise marine)
Triste carne, aí de mim! Já li os livros todos. Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modos De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus! Nada, nem os jardins espelhados nos meus Olhos, o coração retém quase afogado, Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade No branco do papel que o vazio rejeita E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita. Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga As amarras, demanda outra exótica plaga!
Um Tédio, desolado por esperanças cruéis, Crê ainda nos lenços molhados dos adeus! E talvez que esses mastros atraindo os presságios Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus … Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!
Retinal art, as coined by Marcel Duchamp, emphasizes the visual experience, focusing on pleasing the eye without necessarily engaging the intellect or offering deeper meaning.
Conceptual art prioritizes the idea or concept behind the artwork, often de-emphasizing the physical object itself.
Antoine CoypelCharles Nègre – 1850François Boucher – 1740Leonardo Da Vinci – 1510
‘Leda and the Swan’ is a sonnet considered one of the most perfect poems of W.B. Yeats. This artistic perfection, as Ellman has pointed out, was achieved by the poet not spontaneously but through at least six stages of revision and modification. It now stands as the final fusion of history myth and vision, the force and richness of which arise from the fact that the poet has succeeded in enclosing vast immensities within a small compass. The poem in one sweep, before we realize what has taken place, sets in motion a train of events that resulted in the destruction of the Trojan War, and the various events narrated by Homer in his epic, Illiad and Odessey.
Emergido nas primeiras décadas do século XIX na América do Norte, o Transcendentalismo representa um movimento filosófico e literário cujos princípios fundamentais enfatizam a intuição, a conexão intrínseca com a natureza e a busca incansável pela verdade interior. Além das limitações da razão e da experiência empírica, os transcendentalistas almejavam alcançar conhecimento e sabedoria através de uma perspectiva mais profunda.
As raízes do transcendentalismo remontam ao movimento romântico europeu, que celebrava a emoção, a imaginação e a intuição. Filósofos, como Immanuel Kant e Johann Gottlieb Fichte, exerceram influência significativa no desenvolvimento desse movimento. Suas reflexões sobre a natureza da realidade e a capacidade da mente humana para compreendê-la contribuíram para moldar os princípios transcendentalistas. Além disso, o idealismo alemão e os escritos de Samuel Taylor Coleridge também desempenharam um papel crucial nesse contexto.
Intuição e Verdade Interior
Os transcendentalistas sustentavam que a verdade e o conhecimento não se limitavam à lógica e à experiência sensorial. A intuição, aliada à conexão com uma alma universal ou over-soul, representava a fonte suprema de sabedoria.
Natureza como Reflexo do Divino
A natureza era considerada sagrada e essencial para o desenvolvimento espiritual e intelectual. Aprofundar-se na contemplação da natureza permitia aos indivíduos acessar um conhecimento mais profundo e transcendente.
Individualidade e Autenticidade
O movimento enfatizava a singularidade de cada ser humano. Encorajava-se a confiança na intuição pessoal e a coragem de seguir um caminho próprio, mesmo que divergisse das normas sociais.
O transcendentalismo deixou marcas indeléveis na literatura americana. Escritores como Ralph Waldo Emerson, Henry David Thoreau e Walt Whitman incorporaram essas ideias em suas obras, enriquecendo o cânone literário. Além disso, muitos transcendentalistas eram ativistas fervorosos, engajados em causas sociais como a abolição da escravidão, os direitos das mulheres e a reforma educacional.
Apesar de sua influência duradoura, alguns consideravam o Transcendentalismo excessivamente idealista e desconectado da realidade prática. Argumentava-se que a ênfase na individualidade poderia levar ao egoísmo e à negligência das responsabilidades sociais.
A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos — a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias.
O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas.
O cafona manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e à brutalidade para ser respeitado.
A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Seguro de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões. A cafonice não tem vergonha na cara.
O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer vencer, para ver o outro perder. Quer ser convidado, para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos.
Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.
Nosso amor é impuro como impura é a luz e a água e tudo quanto nasce e vive além do tempo.
Minhas pernas são água, as tuas são luz e dão a volta ao universo quando se enlaçam até se tornarem deserto e escuro. E eu sofro de te abraçar depois de te abraçar para não sofrer.
E toco-te para deixares de ter corpo e o meu corpo nasce quando se extingue no teu.
E respiro em ti para me sufocar e espreito em tua claridade para me cegar, meu Sol vertido em Lua, minha noite alvorecida.
Tu me bebes e eu me converto na tua sede. Meus lábios mordem, meus dentes beijam, minha pele te veste e ficas ainda mais despida.
Pudesse eu ser tu E em tua saudade ser a minha própria espera.
Mas eu deito-me em teu leito Quando apenas queria dormir em ti.
E sonho-te Quando ansiava ser um sonho teu.
E levito, voo de semente, para em mim mesmo te plantar menos que flor: simples perfume, lembrança de pétala sem chão onde tombar.
Teus olhos inundando os meus e a minha vida, já sem leito, vai galgando margens até tudo ser mar. Esse mar que só há depois do mar.
No livro “Idades cidades divindades”
Para Ti
Foi para ti que desfolhei a chuva para ti soltei o perfume da terra toquei no nada e para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras e todas me faltaram no minuto em que talhei o sabor do sempre
Para ti dei voz às minhas mãos abri os gomos do tempo assaltei o mundo e pensei que tudo estava em nós nesse doce engano de tudo sermos donos sem nada termos simplesmente porque era de noite e não dormíamos eu descia em teu peito para me procurar e antes que a escuridão nos cingisse a cintura ficávamos nos olhos vivendo de um só amando de uma só vida