Lyotard vs Lacan

A obra de Jean-François Lyotard desenvolve uma crítica profunda e multifacetada à visão de Jacques Lacan sobre o signo, dirigindo-se principalmente contra dois pontos centrais: a tese de que o inconsciente seria “estruturado como uma linguagem” e o que Lyotard denomina “imperialismo do conceito”. Essa crítica, longe de se limitar a um debate interno à psicanálise, coloca em questão os próprios fundamentos da relação entre linguagem, desejo e representação.

O sonho não é um discurso

Lacan, herdeiro do estruturalismo, defende que os processos primários do inconsciente operam de maneira análoga aos mecanismos linguísticos. Lyotard contesta radicalmente essa posição ao afirmar que o sonho não constitui um discurso. O “trabalho do sonho” (dream-work) não obedece às mesmas regras da fala: ele não pensa, mas transforma e desfigura. Ao reduzir o inconsciente à estrutura da linguagem, Lacan ignoraria a dimensão energética do desejo — sua força pulsional — e, com isso, estaria, nas palavras de Lyotard, “matando” tanto a arte quanto o sonho.

Metáfora, metonímia e o mal-entendido do trabalho do sonho

Lyotard realiza uma análise técnica minuciosa da apropriação que Lacan faz das categorias de Roman Jakobson (metáfora e metonímia) para explicar os mecanismos freudianos de condensação e deslocamento. Para Lyotard, a identificação lacaniana da condensação com a metáfora é problemática: a condensação freudiana opera como um processo espacial de compressão, tratando as palavras como “coisas” e transgredindo, assim, as regras do sistema linguístico. O deslocamento, por sua vez, não se reduz à metonímia sem que se percam aspectos essenciais do funcionamento inconsciente.

A barra de significação entre Saussure e Lacan

No algoritmo lacaniano, a barra que separa significante (S) e significado (s) representa a repressão ou a censura. Lyotard critica essa interpretação ao lembrar que, para Saussure, a relação entre significante e significado era marcada pela transparência e pela indissociabilidade no interior da experiência concreta da fala. Lacan estaria, portanto, confundindo dois planos distintos: o da significação, que se define como valor linguístico dentro de um sistema fechado, e o do sentido (sens), que possui uma profundidade própria, marcada pelo jogo entre esconder e revelar.

Signo semiótico e tensor: do niilismo à intensidade

Em Economia Libidinal, Lyotard classifica o signo semiótico — tal como empregado tanto por Saussure quanto por Lacan — como niilista e religioso. A semiótica lacaniana, ao concentrar-se exclusivamente no conceito, negaria a importância do material, do corporal e do sensível. Além disso, a ideia de que o sentido é infinitamente adiado em uma cadeia de referências constitui, para Lyotard, a expressão máxima do niilismo.

Em contraposição a esse modelo, Lyotard propõe a noção de tensor. Diferentemente do signo comum, o tensor não produz apenas significação por oposição, mas também intensidade por força e singularidade. O tensor incorpora a dimensão da força que escapa à lógica puramente diferencial do significante.

A repressão do sensorial e do figurativo

Por fim, Lyotard sustenta que a visão lacaniana promove uma repressão do sensorial e do gozo (jouissance). Enquanto Lacan privilegia o significante linguístico, Lyotard toma o partido do “olho” e da imagem. A figurabilidade, argumenta ele, possui funções que Lacan se recusa a admitir — entre elas, a capacidade de substituir um significado por um de seus designados (objetos), rompendo assim com o fechamento do sistema linguístico.

Para Lyotard, o equívoco fundamental de Lacan reside na tentativa de colocar a linguística a serviço da psicanálise de maneira tão absoluta que acaba por apagar a espessura figurativa e a intensidade libidinal. Essas duas dimensões — a espessura da imagem e a intensidade pulsional — são, para Lyotard, as verdadeiras marcas do desejo e da arte, e sua exclusão compromete irremediavelmente qualquer teoria psicanalítica que pretenda dar conta da singularidade do inconsciente.

Repercussão

A crítica de Lyotard a Lacan suscitou um debate rico e polarizado: enquanto os lacanianos veem nela um mal-entendido fundamental, outros a consideram um avanço teórico importante na direção de uma reconsideração do papel da imagem, da figura e da intensidade sensível na experiência psíquica, ainda que não isenta de problemas próprios.

Um dos principais pontos de crítica à posição de Lyotard é que ele teria interpretado a tese do “inconsciente estruturado como uma linguagem” de maneira excessivamente literal. Para Lacan, a analogia com a linguagem não significa que o inconsciente seja idêntico à língua tal como descrita pela linguística saussuriana, mas sim que ele obedece a uma lógica similar à do significante — uma lógica de diferença, deslocamento e condensação que, justamente, escapa à transparência do significado. Ao insistir que o sonho “não é um discurso”, Lyotard estaria, segundo essa crítica, desconsiderando o caráter fundamentalmente metafórico da proposição lacaniana.

Além disso, alguns comentadores argumentam que Lyotard, em sua defesa do “tensor” e da intensidade libidinal, acaba por reintroduzir uma forma de dualismo entre o energético e o simbólico que a própria psicanálise lacaniana procurou superar. Para Lacan, o gozo (jouissance) não está do lado de fora do significante — ele é, ao contrário, aquilo que o significante simultaneamente possibilita e interdita. A “barra” criticada por Lyotard seria justamente o que torna o desejo possível, e não um mero obstáculo epistemológico.

De maneira mais ampla, a própria tentativa de Lyotard de fundar uma “economia libidinal” que escapasse à semiótica estruturalista foi vista por alguns como uma recaída em certo naturalismo ou em uma metafísica da força que a filosofia crítica deveria justamente desconstruir.

Posted in Mind | Leave a comment

Matrimônio do céu e do inferno

Excesso de tristeza ri. Excesso de alegria chora.
Poema de William Blake:
via:
https://trilhas.diogenesjunior.com.br/matrim%C3%B4nio-do-c%C3%A9u-e-do-inferno-3947bf4d56cf
Newton – William Blake (1795)

PROVÉRBIOS DO CÉU

A prudência é uma velha donzela feia cortejada pela incapacidade.
Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.

A minhoca cortada perdoa o arado.
Mergulha no rio quem ama a água.
Um tolo não vê a mesma árvore vista por um sábio.

Aquele cuja face não tem luz nunca se tornará uma estrela.

A eternidade está apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha ocupada não tem tempo para a tristeza.
As horas de tolice são medidas pelo relógio, mas as de sabedoria, nenhum relógio pode medir.

Toda comida saudável é apanhada sem rede ou arapuca.
Ressalte os números de peso e medida em um ano de escassez.

Nenhum pássaro voa alto demais, se voa com as próprias asas.
Um corpo morto não se vinga de ofensas.

O mais sublime ato é por outro antes de você.
Se o tolo persistisse em sua tolice, ele se tornaria sábio.
A tolice é o disfarce da patifaria. A vergonha é o disfarce do Orgulho.

As prisões são construídas com pedras da Lei, os Bordéis, com tijolos da Religião.

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é o prêmio de Deus.

A ira do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é o trabalho de Deus.

William Blake’s portrait, 1698
Thomas Phillips RA (1770 – 1845)

Excesso de tristeza ri. Excesso de alegria chora.

O rugir dos leões, o uivar dos lobos, a riria do mar tempestuoso e a espada destrutiva são porções de eternidade grandes demais para o olho do homem.

A raposa condena a armadilha, nunca a si mesma.

A alegria fecunda. A tristeza produz.

Deixe o homem vestir a pele de leão, a mulher, a lã de ovelha.

O pássaro, um ninho. a aranha, uma teia; o homem, a amizade.

O que agora está provado já havia sido imaginado.

O rato, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes, o leão o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.

A cisterna contém; a fonte transborda.

Um pensamento preenche a imensidão.

Pense de manhã. Aja à tarde. Coma ao anoitecer. Durma à noite.

Aquele que sofreu, você impõe que o conheça.
Assim como o arado segue palavras, Deus recompensa as orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.
Espere veneno da água parada.

A macieira nunca pergunta à faia como deve crescer; nem o leão, ao cavalo, como deve apanhar sua presa.

The Virgin Hushing the Young John the Baptist (1799) – William Blake
PROVÉRBIOS DO INFERNO

Como o ar para um pássaro ou o mar para um peixe, assim é o desprezo para um desprezível.

Os antigos poetas animaram todos os objetos sensíveis com deuses ou Gênios, chamando-os por nomes e adornando-os com as propriedades de florestas, rios, montanhas, laços, cidades, nações e o que quer que seus aumentados e numerosos sentidos podiam perceber. E particularmente, eles estudaram o gênio de cada cidade e pais, colocando-os sob sua deidade mental;

Assim um sistema se formou, do qual alguns tiraram vantagem e escravizaram o vulgo tentando compreender ou abstrair as deidades mentais de seus objetos; assim começou o Sacerdócio; Escolhendo formas de adoração em textos poéticos. E finalmente proclamaram que os Deuses ordenaram tais coisas. Assim o homem esqueceu que Todas as deidades residem no peito humano.

Posted in Mind | Leave a comment

A paixão da destruição é, ao mesmo tempo, uma paixão criadora

„Laßt uns dem ewigen Geiste vertrauen, der nur zerstört und vernichtet, weil er der unergründliche und ewig schaffende Quell alles Lebens ist. Die Leidenschaft der Zerstörung ist zugleich eine schaffende Leidenschaft!“

Trecho final de Die Reaktion in Deutschland (1842) de Mikhail Bakunin

Confiemos no espírito eterno, que só destrói e aniquila porque é a fonte insondável e eternamente criadora de toda a vida. A paixão da destruição é, ao mesmo tempo, uma paixão criadora.

“Destruição” não é mero niilismo, mas momento necessário da dialética histórica herdada de Hegel: o “negativo” que aniquila o “positivo” envelhecido para que uma nova forma de vida social possa emergir. A destruição do velho Estado e da ordem estabelecida é apresentada como condição para o surgimento de uma liberdade efetiva e de novas instituições.

.

.

.

.

.

Posted in Mind | Leave a comment

Dois e dois são quatro – Ferreira Gullar

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

– sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.

— Ferreira Gullar. “Melhores Poemas de Ferreira Gullar”, de Alfredo Bosi / Editora Global, 1.ª edição | 2012.

Posted in Mind | Leave a comment

Suzanne Valadon

Marie-Clémentine Valade (Bessines-sur-Gartempe, 23 de setembro de 1865 – Paris, 7 de abril de 1938)

Pierre Auguste Renoir, 1885
Pierre Puvis de Chavanne, 1880
Henri Toulousse-Lautrec, 1884
Suzanne Valadon, 1883
Posted in Mind | Leave a comment

Brise marine – Mallarmé

La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres.
Fuir ! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux !
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature !

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs !
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots …
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots !

Stéphane Mallarmé (1842-1898)

photo by L.E.Geara

Brisa marinha (Brise marine)

Triste carne, aí de mim! Já li os livros todos.
Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modos
De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus!
Nada, nem os jardins espelhados nos meus
Olhos, o coração retém quase afogado,
Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade
No branco do papel que o vazio rejeita
E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita.
Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga
As amarras, demanda outra exótica plaga!

Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,
Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!
E talvez que esses mastros atraindo os presságios
Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios
Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus …
Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!

Tradução de José Augusto Seabra

via: https://viciodapoesia.com/2012/07/27/stephane-mallarme-1842-1898-brisa-marinha/

Posted in Mind | Leave a comment

Retinal art vs Conceptual art

Retinal art, as coined by Marcel Duchamp, emphasizes the visual experience, focusing on pleasing the eye without necessarily engaging the intellect or offering deeper meaning. 

Conceptual art prioritizes the idea or concept behind the artwork, often de-emphasizing the physical object itself

Posted in Mind | Leave a comment

The Kindergarten Teacher poems

Poets Kaveh Akbar, Dominique Townsend
and Ocean Vuong worked with Gyllenhaal
and Colangelo to write poems for the film
The Kindergarten Teacher

Anna is beautiful.
Beautiful enough for me.
The sun hits her yellow house.
It’s almost like a sign from God,

… It gets so dark It stays dark, Even when I turn on the light.

Then, It gets so bright,
The flowers bow to the sun.

Do you remember the lion?
So quick and so strong.
He has no master when his master is sleeping.

And all his master does is sleep.

photo by L.E.Geara

The bull stood alone in the backyard. So dark.

I opened the door and stepped out. Wind in the branches.

He watched me, Blue eyes. He kept breathing to stay alive.

I didn’t want him. I was just a boy.

Say yes,

Say yes, anyway.

Anna, get up.

Remember Loneliness is still time spent With the world.

Here’s the room with everyone in it.

Your dead friends passing through you Like wind through a wind chime.

Don’t be afraid, Anna.

The end of the road is so far ahead It is already Behind us.

Ocean Vuong

Posted in Mind | Leave a comment

Leda vs the Swan

Antoine Coypel
Charles Nègre – 1850
François Boucher – 1740
Leonardo Da Vinci – 1510

‘Leda and the Swan’ is a sonnet considered one of the most perfect poems of W.B. Yeats. This artistic perfection, as Ellman has pointed out, was achieved by the poet not spontaneously but through at least six stages of revision and modification. It now stands as the final fusion of history myth and vision, the force and richness of which arise from the fact that the poet has succeeded in enclosing vast immensities within a small compass. The poem in one sweep, before we realize what has taken place, sets in motion a train of events that resulted in the destruction of the Trojan War, and the various events narrated by Homer in his epic, Illiad and Odessey.

by Dharmender Kumar

via https://poemanalysis.com/william-butler-yeats/leda-and-the-swan/

Posted in Mind | Leave a comment

Transcendentalismo


L.E.Geara

Emergido nas primeiras décadas do século XIX na América do Norte, o Transcendentalismo representa um movimento filosófico e literário cujos princípios fundamentais enfatizam a intuição, a conexão intrínseca com a natureza e a busca incansável pela verdade interior. Além das limitações da razão e da experiência empírica, os transcendentalistas almejavam alcançar conhecimento e sabedoria através de uma perspectiva mais profunda.

As raízes do transcendentalismo remontam ao movimento romântico europeu, que celebrava a emoção, a imaginação e a intuição. Filósofos, como Immanuel Kant e Johann Gottlieb Fichte, exerceram influência significativa no desenvolvimento desse movimento. Suas reflexões sobre a natureza da realidade e a capacidade da mente humana para compreendê-la contribuíram para moldar os princípios transcendentalistas. Além disso, o idealismo alemão e os escritos de Samuel Taylor Coleridge também desempenharam um papel crucial nesse contexto.

Intuição e Verdade Interior

Os transcendentalistas sustentavam que a verdade e o conhecimento não se limitavam à lógica e à experiência sensorial. A intuição, aliada à conexão com uma alma universal ou over-soul, representava a fonte suprema de sabedoria.

Natureza como Reflexo do Divino

A natureza era considerada sagrada e essencial para o desenvolvimento espiritual e intelectual. Aprofundar-se na contemplação da natureza permitia aos indivíduos acessar um conhecimento mais profundo e transcendente.

Individualidade e Autenticidade

O movimento enfatizava a singularidade de cada ser humano. Encorajava-se a confiança na intuição pessoal e a coragem de seguir um caminho próprio, mesmo que divergisse das normas sociais.

O transcendentalismo deixou marcas indeléveis na literatura americana. Escritores como Ralph Waldo Emerson, Henry David Thoreau e Walt Whitman incorporaram essas ideias em suas obras, enriquecendo o cânone literário. Além disso, muitos transcendentalistas eram ativistas fervorosos, engajados em causas sociais como a abolição da escravidão, os direitos das mulheres e a reforma educacional.

Apesar de sua influência duradoura, alguns consideravam o Transcendentalismo excessivamente idealista e desconectado da realidade prática. Argumentava-se que a ênfase na individualidade poderia levar ao egoísmo e à negligência das responsabilidades sociais.

Posted in Mind | Leave a comment

Bando de Cafonas

Fernada Young


A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos — a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias.

O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas.

O cafona manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e à brutalidade para ser respeitado.

A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Seguro de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões. A cafonice não tem vergonha na cara.

O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer vencer, para ver o outro perder. Quer ser convidado, para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos.

Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.

Via:

O Globo 29/08/2019

Posted in Mind | 1 Comment

Mia Couto 2 poemas

O Amor, Meu Amor

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

No livro “Idades cidades divindades”

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

No livro “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”

Posted in Mind | Leave a comment

Sine Ira et Studio iterum

No texto de introdução dos seu Anais, Tácito anuncia que escreverá, a história dos acontecimentos já nele distantes, sine ira et studio.

Locução latina que indicaria quais deveriam ser as qualidades de historiadores, jornalistas, comentadores ou analistas: sem cólera nem favor.

Sem ódio e sem preconceito

Sem rancor e preconceito

Sem ódios ou paixões

Posted in Mind | Leave a comment