vieses inconscientes

O sono da razão produz monstros –
eles acabaram de ser eleitos. (foto: L.E.Geara)

O viés inconsciente, também conhecido como viés ou preconceito implícito, é um pressuposto, uma crença ou uma atitude aprendida que parte do subconsciente. Todos têm tais vieses e recorrem a eles como atalhos mentais para um processamento de informação mais rápido.

Os vieses implícitos se desenvolvem ao longo do tempo, à medida que acumulamos experiências de vida e nos expomos a estereótipos distintos, tais vieses, que englobam avaliações favoráveis e desfavoráveis, são ativados involuntariamente e sem a consciência ou controle intencional de um indivíduo.

1. Preconceito de gênero

O preconceito de gênero, ou seja, o favorecimento de um gênero em detrimento de outro, é também frequentemente chamado de sexismo. Esse preconceito ocorre quando alguém associa inconscientemente certos estereótipos a gêneros específicos.  

2. Discriminação em função da idade

A discriminação em função da idade refere-se à criação de estereótipos ou à rejeição dos outros em razão da idade. Ela ocorre frequentemente com os membros mais velhos da equipe.

3. Predileção por nomes

A predileção por nomes é a tendência de preferir certos nomes a outros.
Ela é mais preponderante no recrutamento. Este viés transparece quando um recrutador tende a oferecer entrevistas a candidatos com nomes que lhe soem melhor em detrimento de candidatos igualmente qualificados com outros nomes.

4. Favoritismo em razão da aparência

Este viés se refere ao favoritismo e criação de estereótipos positivos de indivíduos que são considerados mais atraentes. Isso também originou o termo aspectismo, que é a discriminação com base na aparência física. 

5. Efeito halo

O efeito halo, expressão cunhada pelo psicólogo Edward Thorndike na década de 1920, ocorre quando construímos uma imagem majoritariamente positiva de alguém em razão de uma qualidade ou característica da pessoa.
Este efeito pode-nos levar a colocar involuntariamente pessoas num pedestal, uma vez que estamos construindo a imagem da pessoa com base em informações limitadas.

6. Efeito chifre

Trata-se do oposto ao efeito halo. Este viés nos leva a ter uma imagem negativa de alguém em função de uma característica ou experiência. 
A grande ênfase numa única característica ou interação com alguém pode levar a juízos imprecisos e injustos do caráter da pessoa. 
Isso sucede, por exemplo, quando um novo membro da equipe acha que a crítica construtiva que recebeu do gestor é hostil e supõe que este é um indivíduo crítico e severo. 

7. Viés de confirmação

O viés de confirmação é a tendência de procurar e utilizar informações que confirmem certas opiniões e expectativas. Em outras palavras, trata-se de selecionar a dedo informações para validar certas perspectivas. 
Isto afeta a nossa capacidade de pensar de forma crítica e objetiva, o que pode levar a interpretações distorcidas das informações e a ignorá-las com pontos de vista opostos. 

8. Viés de concordância

O viés de concordância é semelhante à opinião coletiva, que ocorre quando mudamos de ideia ou comportamento para nos adequarmos à opinião do grupo mais amplo, mesmo se ela não reflete a nossa perspectiva.
Este viés pode suceder quando estamos sob pressão dos colegas ou quando tentamos nos encaixar em certo grupo social ou ambiente profissional. 

9. Viés de afinidade

O viés de afinidade é também conhecido como viés de semelhança e refere-se à tendência de favorecer pessoas que partilham interesses, formações e experiências semelhantes. Tendemos a nos sentirmos mais à vontade em torno de pessoas que são como nós.
Este viés pode afetar as decisões de contratação. Por exemplo, um gestor tende a favorecer um candidato à vaga de emprego porque ambos estudaram na mesma instituição.

10. Efeito do contraste

Em geral, os nossos julgamentos se dão por comparações. Como resultado, eles podem ser alterados em função do padrão com o qual estamos comparando algo. Isso é conhecido como efeito do contraste.
Por exemplo, um membro da equipe está feliz por receber um “atende às expectativas” na sua avaliação de desempenho. No entanto, o indivíduo começa a sentir-se deslocado depois de descobrir que a maioria dos colegas recebeu “excede as expectativas” na avaliação.
Embora tenha recebido uma avaliação satisfatória, o membro da equipe se julga de forma mais severa, já que o seu termo de comparação é o resultado dos colegas.

11. Viés do status quo

Este viés descreve a nossa preferência pela forma como as coisas são ou pela permanência das coisas como estão, o que pode resultar em resistência à mudança.
Seguir o status quo é uma opção segura e demanda menos esforço, mas também resulta em estagnação. Como o panorama empresarial continua evoluindo, a mudança é necessária para a longevidade e inovação empresariais.
Um exemplo do viés de status quo em uma empresa é continuar contratando membros da equipe do mesmo grupo demográfico, sem fazer esforço para avançar nas metas de diversidade.

12. Viés de ancoragem

O viés de ancoragem ocorre quando confiamos exageradamente na primeira informação que recebemos como se ela fosse uma âncora em que baseamos a nossa tomada de decisões. Isso nos leva a ver as coisas de uma perspectiva estreita. 
Por exemplo, a primeira coisa que um recrutador descobre sobre um candidato entrevistado é que este ficou desempregado durante o ano passado. O recrutador concentra-se neste fato e não nas qualificações e competências concretas do candidato.
Em vez de se apoiar numa única parte da informação para tomar uma decisão, é importante olhar o todo.

13. Viés de autoridade

O viés de autoridade se refere à tendência de acreditar em símbolos de autoridade e seguir as suas instruções. 
Em geral, seguir uma autoridade de confiança com conhecimentos relevantes é uma boa ideia. No entanto, seguir cegamente a direção de um líder sem ter pensamento crítico pode causar problemas futuros.

14. Viés de excesso de confiança

O viés de excesso de confiança é a tendência de alguém achar que é melhor em certas habilidades e aptidões do que de fato é.
Esta falsa avaliação do próprio nível de habilidade, decorrente de uma ilusão de conhecimento ou controle, pode levar à tomada de decisões precipitadas.

15. Viés de percepção

O viés de percepção ocorre quando julgamos ou tratamos outras pessoas em função de estereótipos e pressupostos muitas vezes inexatos e excessivamente simplistas sobre o grupo a que pertencem. Ele pode envolver outros vieses, tais como gênero, idade e aparência.
Esse tipo de viés pode resultar em exclusão social, discriminação e prejudicar as metas de diversidade.

16. Correlação ilusória

A correlação ilusória sucede quando associamos duas variáveis, ocasiões ou ações, mesmo que não estejam relacionadas entre si.
Por exemplo, um gestor de contratação faz perguntas a um candidato procurando perceber a sua personalidade, mas elas não estão relacionadas com o trabalho em si. Uma vez que o candidato tem dificuldade em dar respostas, o gestor de contratação decide que a pessoa não se enquadraria bem.

17. Heurística do afeto

Heurística são atalhos mentais que nos ajudam a tomar decisões de forma mais eficiente. A heurística do afeto ocorre quando confiamos nas nossas emoções para tomar decisões. Isso pode nos ajudar a chegar a uma conclusão mais depressa, embora nem sempre seja precisa ou justa. 

18. Viés de recentidade

O viés de recentidade ocorre quando atribuímos mais importância a eventos recentes do que a eventos passados por serem mais fáceis de recordar. 
É mais provável que ele ocorra quando precisamos processar uma grande quantidade de informações. Por exemplo, dado que eleitores analisam frequentemente um elevado volume de candidaturas em um dia, pode ser mais difícil recordar os candidatos pré-selecionados anteriormente. 

19. Viés idiossincrático do avaliador

O viés idiossincrático do avaliador afeta a forma como se avalia o desempenho dos outros. Muitas vezes, classificamos os outros com base nas nossas interpretações subjetivas dos critérios de avaliação e na nossa definição do “sucesso”.
Em outras palavras, geralmente não somos dignos de confiança quando se trata de avaliar outras pessoas. Pesquisas revelaram que cerca de 60% das avaliações de um gestor são um reflexo do gestor como pessoa e não do membro da equipe em avaliação.

via:

https://asana.com/pt/resources/unconscious-bias-examples

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Yu Xuanji

O TEMPLO ZIFU, FUNDADO PELO EREMITA REN

Ergueu o templo um homem solitário
e hoje é descanso a viajantes – pouso –
Deixam seus nomes vãos à porta, ao lótus
deitam-se escritos nas paredes brancas
As águas correm para o velho tanque
A relva próxima ao caminho brota
Cem pés é alto o pavilhão de ouro
e em frente ao rio, todo brilho, claro

題任處士創資福寺

幽人創奇境。
遊客駐行程。
粉壁空留字。
蓮宮未有名。
鑿池泉自出。
開徑草重生。
百尺金輪閣。
當川豁眼明。

Tradução: Ricardo Primo Portugal, Tan Xiao.

Via: https://sibila.com.br/poemas/apresentando-yu-xuanji-poeta-chinesa-da-dinastia-tang/4584

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Antroposofia – Steiner

Antroposofia / Antropossofia – doutrina filosófica e mística fundada pelo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), segundo o qual, a antroposofia é a “ciência espiritual”. Ele a apresenta como um caminho em busca da verdade que preenche o abismo historicamente criado desde a escolástica entre fé e ciência.
Na visão de Steiner, a realidade é essencialmente espiritual: ele queria ajudar as pessoas a superar o mundo material e entender o mundo espiritual através do eu espiritual, de nível superior. Segundo Steiner, há um tipo de percepção espiritual que opera de forma independente do corpo e dos sentidos corporais.

Christ im Profil by Rudolf Steiner

A aplicação da antroposofia em áreas como medicina, biologia e agricultura biodinâmica tem sido classificada como pseudociência.

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les substances de Descartes

Substância Pensante (Res Cogitans) – aspecto racional, intelectual, dos seres humanos, associado com a ideia de alma e com a ideia de uma razão que existe para além do corpo.
La substance pensante est l’idée soutenue par les tenants du dualisme et de l’idéalisme, que les esprits sont constitués de substance non physique. Cette substance est souvent dénommée conscience.

https://www.linkedin.com/posts/bakreswarphilo-38b5652a0_philosophy-descartes-dualism-activity-7308725841608269825-fDta

Substância Extensa (Res Extensa) era o aspecto físico, material, da experiência La res extensa est l’une des trois substances décrites par René Descartes dans son ontologie avec la res cogitans (l’ontologie cartésienne est ainsi souvent désignée comme un dualisme radical) et Dieu. Traduit du latin, res extensa signifie « chose étendue ». Descartes le traduit souvent par « substance corporelle ». Dans l’ontologie substance–attribut–mode de Descartes, l’étendue est l’attribut principal de la substance corporelle.

Res cogitans (espírito) – substância pensante, imperfeita, finita e dependente.
Res extensa (matéria) – substância que não pensa, extensa, imperfeita, finita e dependente.
Res divina (Deus) – substância eterna, perfeita, infinita, que pensa e é independente.

via: Les Principes de la philosophie, 2.001.

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Magallanica, sive Terra Australis Incognita

Magallânica, ou a Terra Austral Desconhecida (latim) é um termo histórico que se refere a uma hipotética massa terrestre que cartógrafos e exploradores europeus dos séculos XVI e XVII acreditavam existir no hemisfério sul. Essa ideia surgiu da crença de que deveria haver um grande continente no sul para equilibrar as massas terrestres do hemisfério norte, de acordo com a teoria do equilíbrio da Terra.

1570 map by Abraham Ortelius depicting Terra Australis Nondu Cognita (transl. The southern land yet not known) as a large continent on the bottom of the map.

A ideia da Terra Australis Incognita remonta à antiguidade clássica, com pensadores como Aristóteles e Ptolomeu, que especulavam sobre a existência de uma grande terra no sul. Durante a era das descobertas, essa ideia foi revitalizada, especialmente depois que Fernão de Magalhães descobriu o estreito que leva seu nome (1520) e sugeriu-se que as terras ao sul do estreito poderiam ser parte desse continente desconhecido.

This map is the first map to focus solely on the South Pole. It depicts the huge continent, labeled Magallanica sive Terra Australis Incognita, incorporating Terra de fuogo, Psittacorum Regio, Promontorium terrae australis, and Beach Provinica and is nearly joined with New Guinea and the Salomon Islands. A small ship, sea monster and two compass roses decorate the tiny map. 1616 (circa)

Ao longo dos séculos XVI e XVII, muitos mapas, como os de Gerardus Mercator e Abraham Ortelius, incluíram a Terra Australis como uma grande massa continental que abrangia o Polo Sul. No entanto, expedições posteriores, como as de James Cook no século XVIII, demonstraram que tal continente não existia nas dimensões imaginadas. Em vez disso, foram descobertas a Austrália, a Antártica e outras ilhas menores, mas nenhuma delas correspondia à vasta terra descrita nos mapas antigos.

L.E.Geara – jan/2025

Finalmente, no século XIX, confirmou-se a existência da Antártica, o verdadeiro continente austral. Embora não fosse a Terra Australis imaginada pelos antigos, a Antártica tornou-se o último grande descobrimento geográfico da humanidade.

O termo Magallanica está especificamente associado às explorações da região do Estreito de Magalhães e das terras ao sul, enquanto Terra Australis Incognita representa mais uma ideia filosófica e cartográfica. Hoje, esses termos são lembrados como parte da rica história da exploração e da cartografia, e como um testemunho de como mitos e teorias impulsionaram os exploradores a descobrir novos mundos.

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Lyotard vs Lacan

A obra de Jean-François Lyotard desenvolve uma crítica profunda e multifacetada à visão de Jacques Lacan sobre o signo, dirigindo-se principalmente contra dois pontos centrais: a tese de que o inconsciente seria “estruturado como uma linguagem” e o que Lyotard denomina “imperialismo do conceito”. Essa crítica, longe de se limitar a um debate interno à psicanálise, coloca em questão os próprios fundamentos da relação entre linguagem, desejo e representação.

O sonho não é um discurso

Lacan, herdeiro do estruturalismo, defende que os processos primários do inconsciente operam de maneira análoga aos mecanismos linguísticos. Lyotard contesta radicalmente essa posição ao afirmar que o sonho não constitui um discurso. O “trabalho do sonho” (dream-work) não obedece às mesmas regras da fala: ele não pensa, mas transforma e desfigura. Ao reduzir o inconsciente à estrutura da linguagem, Lacan ignoraria a dimensão energética do desejo — sua força pulsional — e, com isso, estaria, nas palavras de Lyotard, “matando” tanto a arte quanto o sonho.

Metáfora, metonímia e o mal-entendido do trabalho do sonho

Lyotard realiza uma análise técnica minuciosa da apropriação que Lacan faz das categorias de Roman Jakobson (metáfora e metonímia) para explicar os mecanismos freudianos de condensação e deslocamento. Para Lyotard, a identificação lacaniana da condensação com a metáfora é problemática: a condensação freudiana opera como um processo espacial de compressão, tratando as palavras como “coisas” e transgredindo, assim, as regras do sistema linguístico. O deslocamento, por sua vez, não se reduz à metonímia sem que se percam aspectos essenciais do funcionamento inconsciente.

A barra de significação entre Saussure e Lacan

No algoritmo lacaniano, a barra que separa significante (S) e significado (s) representa a repressão ou a censura. Lyotard critica essa interpretação ao lembrar que, para Saussure, a relação entre significante e significado era marcada pela transparência e pela indissociabilidade no interior da experiência concreta da fala. Lacan estaria, portanto, confundindo dois planos distintos: o da significação, que se define como valor linguístico dentro de um sistema fechado, e o do sentido (sens), que possui uma profundidade própria, marcada pelo jogo entre esconder e revelar.

Signo semiótico e tensor: do niilismo à intensidade

Em Economia Libidinal, Lyotard classifica o signo semiótico — tal como empregado tanto por Saussure quanto por Lacan — como niilista e religioso. A semiótica lacaniana, ao concentrar-se exclusivamente no conceito, negaria a importância do material, do corporal e do sensível. Além disso, a ideia de que o sentido é infinitamente adiado em uma cadeia de referências constitui, para Lyotard, a expressão máxima do niilismo.

Em contraposição a esse modelo, Lyotard propõe a noção de tensor. Diferentemente do signo comum, o tensor não produz apenas significação por oposição, mas também intensidade por força e singularidade. O tensor incorpora a dimensão da força que escapa à lógica puramente diferencial do significante.

A repressão do sensorial e do figurativo

Por fim, Lyotard sustenta que a visão lacaniana promove uma repressão do sensorial e do gozo (jouissance). Enquanto Lacan privilegia o significante linguístico, Lyotard toma o partido do “olho” e da imagem. A figurabilidade, argumenta ele, possui funções que Lacan se recusa a admitir — entre elas, a capacidade de substituir um significado por um de seus designados (objetos), rompendo assim com o fechamento do sistema linguístico.

Para Lyotard, o equívoco fundamental de Lacan reside na tentativa de colocar a linguística a serviço da psicanálise de maneira tão absoluta que acaba por apagar a espessura figurativa e a intensidade libidinal. Essas duas dimensões — a espessura da imagem e a intensidade pulsional — são, para Lyotard, as verdadeiras marcas do desejo e da arte, e sua exclusão compromete irremediavelmente qualquer teoria psicanalítica que pretenda dar conta da singularidade do inconsciente.

Repercussão

A crítica de Lyotard a Lacan suscitou um debate rico e polarizado: enquanto os lacanianos veem nela um mal-entendido fundamental, outros a consideram um avanço teórico importante na direção de uma reconsideração do papel da imagem, da figura e da intensidade sensível na experiência psíquica, ainda que não isenta de problemas próprios.

Um dos principais pontos de crítica à posição de Lyotard é que ele teria interpretado a tese do “inconsciente estruturado como uma linguagem” de maneira excessivamente literal. Para Lacan, a analogia com a linguagem não significa que o inconsciente seja idêntico à língua tal como descrita pela linguística saussuriana, mas sim que ele obedece a uma lógica similar à do significante — uma lógica de diferença, deslocamento e condensação que, justamente, escapa à transparência do significado. Ao insistir que o sonho “não é um discurso”, Lyotard estaria, segundo essa crítica, desconsiderando o caráter fundamentalmente metafórico da proposição lacaniana.

Além disso, alguns comentadores argumentam que Lyotard, em sua defesa do “tensor” e da intensidade libidinal, acaba por reintroduzir uma forma de dualismo entre o energético e o simbólico que a própria psicanálise lacaniana procurou superar. Para Lacan, o gozo (jouissance) não está do lado de fora do significante — ele é, ao contrário, aquilo que o significante simultaneamente possibilita e interdita. A “barra” criticada por Lyotard seria justamente o que torna o desejo possível, e não um mero obstáculo epistemológico.

De maneira mais ampla, a própria tentativa de Lyotard de fundar uma “economia libidinal” que escapasse à semiótica estruturalista foi vista por alguns como uma recaída em certo naturalismo ou em uma metafísica da força que a filosofia crítica deveria justamente desconstruir.

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Matrimônio do céu e do inferno

Excesso de tristeza ri. Excesso de alegria chora.
Poema de William Blake:
via:
https://trilhas.diogenesjunior.com.br/matrim%C3%B4nio-do-c%C3%A9u-e-do-inferno-3947bf4d56cf
Newton – William Blake (1795)

PROVÉRBIOS DO CÉU

A prudência é uma velha donzela feia cortejada pela incapacidade.
Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.

A minhoca cortada perdoa o arado.
Mergulha no rio quem ama a água.
Um tolo não vê a mesma árvore vista por um sábio.

Aquele cuja face não tem luz nunca se tornará uma estrela.

A eternidade está apaixonada pelas produções do tempo.
A abelha ocupada não tem tempo para a tristeza.
As horas de tolice são medidas pelo relógio, mas as de sabedoria, nenhum relógio pode medir.

Toda comida saudável é apanhada sem rede ou arapuca.
Ressalte os números de peso e medida em um ano de escassez.

Nenhum pássaro voa alto demais, se voa com as próprias asas.
Um corpo morto não se vinga de ofensas.

O mais sublime ato é por outro antes de você.
Se o tolo persistisse em sua tolice, ele se tornaria sábio.
A tolice é o disfarce da patifaria. A vergonha é o disfarce do Orgulho.

As prisões são construídas com pedras da Lei, os Bordéis, com tijolos da Religião.

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é o prêmio de Deus.

A ira do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é o trabalho de Deus.

William Blake’s portrait, 1698
Thomas Phillips RA (1770 – 1845)

Excesso de tristeza ri. Excesso de alegria chora.

O rugir dos leões, o uivar dos lobos, a riria do mar tempestuoso e a espada destrutiva são porções de eternidade grandes demais para o olho do homem.

A raposa condena a armadilha, nunca a si mesma.

A alegria fecunda. A tristeza produz.

Deixe o homem vestir a pele de leão, a mulher, a lã de ovelha.

O pássaro, um ninho. a aranha, uma teia; o homem, a amizade.

O que agora está provado já havia sido imaginado.

O rato, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes, o leão o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.

A cisterna contém; a fonte transborda.

Um pensamento preenche a imensidão.

Pense de manhã. Aja à tarde. Coma ao anoitecer. Durma à noite.

Aquele que sofreu, você impõe que o conheça.
Assim como o arado segue palavras, Deus recompensa as orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.
Espere veneno da água parada.

A macieira nunca pergunta à faia como deve crescer; nem o leão, ao cavalo, como deve apanhar sua presa.

The Virgin Hushing the Young John the Baptist (1799) – William Blake
PROVÉRBIOS DO INFERNO

Como o ar para um pássaro ou o mar para um peixe, assim é o desprezo para um desprezível.

Os antigos poetas animaram todos os objetos sensíveis com deuses ou Gênios, chamando-os por nomes e adornando-os com as propriedades de florestas, rios, montanhas, laços, cidades, nações e o que quer que seus aumentados e numerosos sentidos podiam perceber. E particularmente, eles estudaram o gênio de cada cidade e pais, colocando-os sob sua deidade mental;

Assim um sistema se formou, do qual alguns tiraram vantagem e escravizaram o vulgo tentando compreender ou abstrair as deidades mentais de seus objetos; assim começou o Sacerdócio; Escolhendo formas de adoração em textos poéticos. E finalmente proclamaram que os Deuses ordenaram tais coisas. Assim o homem esqueceu que Todas as deidades residem no peito humano.

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A paixão da destruição é, ao mesmo tempo, uma paixão criadora

„Laßt uns dem ewigen Geiste vertrauen, der nur zerstört und vernichtet, weil er der unergründliche und ewig schaffende Quell alles Lebens ist. Die Leidenschaft der Zerstörung ist zugleich eine schaffende Leidenschaft!“

Trecho final de Die Reaktion in Deutschland (1842) de Mikhail Bakunin

Confiemos no espírito eterno, que só destrói e aniquila porque é a fonte insondável e eternamente criadora de toda a vida. A paixão da destruição é, ao mesmo tempo, uma paixão criadora.

“Destruição” não é mero niilismo, mas momento necessário da dialética histórica herdada de Hegel: o “negativo” que aniquila o “positivo” envelhecido para que uma nova forma de vida social possa emergir. A destruição do velho Estado e da ordem estabelecida é apresentada como condição para o surgimento de uma liberdade efetiva e de novas instituições.

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Dois e dois são quatro – Ferreira Gullar

Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

– sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.

— Ferreira Gullar. “Melhores Poemas de Ferreira Gullar”, de Alfredo Bosi / Editora Global, 1.ª edição | 2012.

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Suzanne Valadon

Marie-Clémentine Valade (Bessines-sur-Gartempe, 23 de setembro de 1865 – Paris, 7 de abril de 1938)

Pierre Auguste Renoir, 1885
Pierre Puvis de Chavanne, 1880
Henri Toulousse-Lautrec, 1884
Suzanne Valadon, 1883
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Brise marine – Mallarmé

La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres.
Fuir ! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux !
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature !

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs !
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots …
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots !

Stéphane Mallarmé (1842-1898)

photo by L.E.Geara

Brisa marinha (Brise marine)

Triste carne, aí de mim! Já li os livros todos.
Fugir! Longe fugir! As aves sinto a modos
De ser ébrias de espuma entre o mistério e os céus!
Nada, nem os jardins espelhados nos meus
Olhos, o coração retém quase afogado,
Ó noites! nem da lâmpada a ausente claridade
No branco do papel que o vazio rejeita
E nem a jovem mãe que ao peito o filho aleita.
Hei-de partir! Veleiro a mastrear, tu, larga
As amarras, demanda outra exótica plaga!

Um Tédio, desolado por esperanças cruéis,
Crê ainda nos lenços molhados dos adeus!
E talvez que esses mastros atraindo os presságios
Sejam dos que o tufão verga sobre os naufrágios
Perdidos, já sem mastros, em estéreis ilhéus …
Mas os marujos cantam, ouve, coração meu!

Tradução de José Augusto Seabra

via: https://viciodapoesia.com/2012/07/27/stephane-mallarme-1842-1898-brisa-marinha/

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Retinal art vs Conceptual art

Retinal art, as coined by Marcel Duchamp, emphasizes the visual experience, focusing on pleasing the eye without necessarily engaging the intellect or offering deeper meaning. 

Conceptual art prioritizes the idea or concept behind the artwork, often de-emphasizing the physical object itself. 

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The Kindergarten Teacher poems

Poets Kaveh Akbar, Dominique Townsend
and Ocean Vuong worked with Gyllenhaal
and Colangelo to write poems for the film
The Kindergarten Teacher

Anna is beautiful.
Beautiful enough for me.
The sun hits her yellow house.
It’s almost like a sign from God,

… It gets so dark It stays dark, Even when I turn on the light.

Then, It gets so bright,
The flowers bow to the sun.

Do you remember the lion?
So quick and so strong.
He has no master when his master is sleeping.

And all his master does is sleep.

photo by L.E.Geara

The bull stood alone in the backyard. So dark.

I opened the door and stepped out. Wind in the branches.

He watched me, Blue eyes. He kept breathing to stay alive.

I didn’t want him. I was just a boy.

Say yes,

Say yes, anyway.

Anna, get up.

Remember Loneliness is still time spent With the world.

Here’s the room with everyone in it.

Your dead friends passing through you Like wind through a wind chime.

Don’t be afraid, Anna.

The end of the road is so far ahead It is already Behind us.

Ocean Vuong

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