Anarquia do Poder em “Salò o le Centoventi Giornate di Sodoma”

Bohemians

“O Poder é Ritualista e Codificador” (Pier Paolo Pasolini)

A verdadeira anarquia é a do poder. Para Pasolini existe o poder em si, que deseja algo totalmente arbitrário, ditado exclusivamente por necessidades económicas que escapam à lógica ou à razão. Ou seja, há uma vontade de poder (como refere Nietzsche) em cada um dos seres humanos, e esta qualidade é íntrinseca e instintiva; logo anárquica. Pois o instinto não admite ordem, nem autoridade ou leis sem ser a suas próprias.

 

Assim podemos falar aquilo que Pier Paolo Pasolini declarava como estando omnipresente no filme, isto é a inexistência da História. Em Salò, os fascistas matam a divisão do pensamento ocidental – racionalismo e empirismo por um lado, e marxismo do outro – substituindo por novos valores alienantes e falsos: aqueles do deleite hedonista e da morte da consciência, resumindo da sociedade de consumo: o que irá conduzir ao que Marx considera como “um genocídio das culturas vivas, reais e precedentes.” Por isso os círculos verticais dantescos existentes no filme justificam-se, finalizando-se no Círculo do Sangue, ou seja, no genocídio massificado da cultura humana.
Em Pasolini, o conformismo a tudo o que se disse é um índicio de morte e da anulação de personalidade, provocada pela sociedade – “que destrói a nossa natureza narcísica e rebelde” – metáfora utilizada em Salò na impotência, imponderabilidade e no conformismo dos jovens, que sendo brutalmente castigados, poucos reagem e muitos aceitam (inclusive a morte) os devaneios da elite. Acordando alguns do seu estado de anestesia para pontualmente serem obedientes e denunciarem os companheiros que não cumpriam as regras dadas pelos fascistas.
Salò o le 120 Giornate di Sodoma é um grito de desespero numa sociedade onde o homem não pode ser livre e não pode ter esperança quanto ao futuro enquanto não se rebelar e lutar por aquilo que lhe pertence face à negra e anónima elite hierárquica de presidentes e duques que passeiam e se divertem, desejando aprisionar no palácio cerrado a que chamamos de Mundo, o jovem povo que todos somos.

“Salò”, também aborda a reificação do ser humano em nossa sociedade. Todos se tornam coisas, objetos, números. Quem detém o poder, assim, nada mais faz do que estruturar e organizar as melhores maneiras de dispôr do próximo. Ou, nas palavras de Pasolini:

No poder (…) existe alguma coisa de animalesco. Em seus códigos e seus prazos, de fato, outra coisa não se faz que sancionar e atualizar a mais primordial e cega violência dos fortes contra os fracos: isto é, digamos ainda uma vez, dos desfrutadores contra os desfrutados. A anarquia dos desfrutados é desesperada, idílica, e sobretudo dobrada no vento, eternamente não realizada. Enquanto a anarquia do poder se concretiza com a máxima facilidade em artigos de códigos e nos prazos. Os poderosos (…) não fazem nada além de escrever Regulamentos e regularmente aplicá-los.

 

 

 

 

 

 

 

A anarquia organizada dos poderosos, evidentemente, acaba por contaminar a anarquia desorganizada das vítimas. A banalidade do mal, para usar a expressão cunhada por Hannah Arendt, torna-se a regra. Algo como uma metástase tem lugar. Não por acaso, em “Saló”, alguns dos escravos passam a dedurar aqueles que não seguem as regras. Esse tipo de colaboracionismo não é sintoma de uma qualquer Síndrome de Estocolmo. Afinal de contas, há lugares onde a corrupção está tão intrinsecamente ligada ao estado de coisas vigente que, a partir de um determinado momento, ela se torna o próprio estado de coisas, a sua lógica, o seu propósito.

O fascismo, é claro, foi se transformando com o passar do tempo. Hoje, está presente nos fundamentalismos, religiosos ou não, na demagogia, nas pseudodemocracias latino-americanas, no discurso “anti-imperialista” e nas ações repressoras, na ditadura da “felicidade” apregoada pelos livros de auto-ajuda, no jornalismo “de utilidade pública” dos programas policiais etc. Está, portanto, em toda parte. Como diria Eichmann, algo assim “normal, humano”, na medida em que todos, de um jeito ou de outro, literal ou figurativamente, praticamos a coprofagia cotidianamente.

Alguém disse sobre Salò : “Este filme é obrigatório, para todos aqueles que desejam alcançar o estatuto de cidadão.”

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dos textos de MIGUEL PATRÍCIO: http://retroprojeccao.blogspot.com/2006/12/sal-o-le-120-giornate-di-sodoma.html

e de André de Leoneshttp://rechavia.wordpress.com/2009/09/19/salo/

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