O Ma e Hélio Oiticica por “jornal do porão”

Wikipédia :

taiko

Ma- um termo japonês para “espaço”, é usado na música para descrever um período de silêncio (pausa). Na execução do taiko, ma é o período de tempo entre as batidas. É importante apreciar este silêncio da mesma forma que se apreciam as batidas. Uma vez que os conjuntos de taiko são focados no ritmo, o ma é crucial para adicionar dramaticidade e tensão. O ma pode ser uma pausa rítmica ou um silêncio estendido (como uma fermata) a ser quebrado por iniciativa do executante. Se o percussionista se concentra em ouvir o ma entre as batidas, ele ou ela vai criar um som muito mais efetivo e satisfatório.

Parangolés e Penetráveis: a influência japonesa em Hélio Oiticica.

12/11/2012

O MA

“Espacialidade do Ma”

MA torna-se verbalizável no momento em que ele aparece no mundo, estado esse que será denominado Espacialidade Ma. QuandoMA se faz representável ou concretamento visível no mundo da existência, aparece como um “espaço-entre” e ganha manifestações múltiplas: intervalo, passagem, pausa, não-ação, silêncio, etc. Essa semântica é identificada na própria composição do ideograma MA (ver ilustração acima), que se constitui de duas portinholas, através das quais, no seu entre-espaço, se avista o Sol”.

Essa espacialidade do MA vai estar presente em várias formas da cultura japonesa e em vários ambientes da sua arquitetura. Percebido e teorizado por seus arquitetos, como Teiji Itoh(1978) que chamou de“um espaço em fluxo”.

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As frases aqui citadas são de  Michiko Okano, retiradas do artigo O Espaço MA e Hélio Oiticica.  Bem possivelmente,  o tema do espaço-tempo MA será desenvolvido no livro “Ma entre espaços”, da mesma autora (capa reproduzida aqui).

MA entre-espacos, livro de Michiko Okano

TOKYOGAQUI um Japão Imaginado, Org. Christine Greiner e Ricardo Muniz Fernandes, edições SESC/SP.

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“Há certas coisas na vida que não se explicam ou a linguagem verbal não se presta a esclarecer suficiente. O MA, uma noção peculiar da cultura japonesa, faz parte desse universo, cujo entendimento se realiza, essencialmente, por meio da intuição, do corpo e, portanto, da vivência…”

“Texto não-verbal“, segundo a semioticista Lucrécia D’Alessio Ferrara (2002): “se apresenta diluído no cotidiano”; “nada impõe à nossa atenção”; “é mudo porque não agride nossa atenção”.

MA se caracteriza pelo seu dinamismo, portanto de difícil apreensão por meios lógicos. Exige um “olhar tátil, multissensorial e sinestético”.

“Apesar dessa inefabilidade, o espaço-tempo MA é reconhecido naturalmente pelos japoneses no seu dia-a-dia e encontra-se, inclusive na própria linguagem…”. A expressão Manuke (MA+tirar=falta de MA). Falta de MA corresponderia à falta de inteligência, também para designar pessoa ignorante. “É um senso comum enraizado na vida cotidiana, sem necessidade de explicações lógicas ou conceituais”.

Idéia de MA, originariamente, é relacionada ao espaço mitológico vazio, demarcado por pilastras, que podem ser atadas por uma corda, onde haveria a aparição divina no território criado. É um território vazio no qual é possível ocorrer um acontecimento…”

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Dialógos entre o MA e as obras de Hélio Oiticica

Ilustração da coletânea Tokyogaqui

Hélio Oiticica buscou, em sua obra “propostas de desenvolvolvimento de atos de vida”, transgredindo a consideração da arte como mera representação.

Parangolés, dePenetráveis têm grande influência da estética da favela, do samba e da Mangueira dos anos 1960.

“Em ambos os casos, japonês e brasileiro, nota-se a presença doESPAÇO-DISPONIBILIDADE….DO ESPAÇO MOVIMENTO…. em conjunção com oESPAÇO-TEMPO… e do ESPAÇO-CONVIVÊNCIA, no qual o corpo desenvolve uma estreita relação com o ambiente por meio de sua vivência”
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ESPAÇO DISPONIBILIDADE: A ESTÉTICA DO INACABADO

O espaço MA oferta um ambiente disponível, a princípio vazio, para uma possível ação”

“Um mesmo recinto de quatro tatami e meio, (aproximadamente 2,70 X 2,70), geralmente desprovido de móveis, pode transformar-se quer num dormitório, … quer numa sala de estar…. ou de jantar…. constitui-se numa ambiente em eterna mutação”

Claude Monet-madame Monet. Coloco Monet aqui para remeter à influência das artes francesas sobre o Brasil, outra via possível. Mas abaixo veremos que a presença portuguesa no Japão criou toda uma iconografia.

“Uma espécie de capa maleável feita de materiais diversos… vestir, em vez de se limitar ao ver e atentar, … o observador passivo, em sujeito ativo usuário…Maleável e fluido…desenha formas sempre em transformação… (adaptando-se ao corpo)…. O artista é um propositor…. Cria um espaço aberto que incita a novas experiências… São obras que não se limitar a expressar-se por si sós, mas a expressão ocorre ‘por meio delas’…

“Tanto o trabalho artístico de Hélio Oiticica, quanto o recinto Ma não fazem parte do universo das criações imóveis, mas se tornam ponto de partida para um possível acontecimento, ou seja, um gatilho para a ação a ser desenvolvida a posteriori pelo ser humano. Participantes da estética do inacabado, essas espacialidades encontram-se em constante construção”

Hélio Oiticica, parangolé 1964, máscaras africanas estendidas. E não esquecer jamais as influências africanas nos Parangolés. Já descrita em outro post (veja Pingback).

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ESPAÇO-MOVIMENTO:CONSTRUÇÃO DE UM PROCESSO

Hélio Oiticica frequentava a escola de Samba Mangueira quando cria os Parangolés.

Estética da Ginga”: assim chama a arquiteta Paola Berenstein Jacques (2003):

– composta de fragmentos;

– do movimento dos corpos que dançam;

– os próprios barracos são construções em processo: materiais novos são sempre acrescentados ou substituídos,  no já construído;

– “É uma espacialidade movente que, necessariamente, envolve o espaço e o tempo, dialoga com o acaso e tem como consequência algo sempre inacabado, aberto a participação e complementações eternas, chamado pela pesquisadora de espaço-movimento”

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SANDÔ: “Na espacialidade Ma presente no sandô , percurso de peregrinação de um santuário xintoísta, é elaborado um espaço-tempo adaptativo da zona profana para a divina. No Santuário de Ise, da província japonesa de Mie, o transeunte passa por um portal denominado torii e por uma ponte sobre o rio Isuzu, ambos elementos primeiros que demarcam a passagem para o território divino, quando se descortina uma floresta e, através dela, caminhos tortuosos de pedregulhos. Não só o visual, mas os outros sentidos são aguçados durante a caminhada: a audição, pelo som das águas do rio e pelo barulho dos pedregulhos sob os pés dos transeuntes; o olfato, pelo aroma do verde das florestas; o paladar e o tato, pela água que purifica a boca e a mão…”

Ponte sobre o rio Isuzu, em Ise

Santuário de Ise, ponte Uji, sobre o rio Isuzu e portal Torii 

O Grande Labirinto, de Hélio Oiticica:

tateoiticicafiltro. Não foi possível achar no Google o labirinto citado no texto. Substituo aqui por outra obra labirinto:
Filtros
A obra Projeto Filtro – para Vergara NY 1972 de Hélio Oiticica (1937-1980)

Disse dele Oiticica: “o espaço e o tempo se casam em definitivo(1968).” ” O espectador, além de penetrar na obra e escolher o percurso, que se apresenta como um labirinto, pode também manipular o objeto, trocando a posição das placas: os participantes são vivenciadores e construtores do seu próprio labirinto.”

Na espacialidade do sandô ,      a sensação do labirinto não é tanto no sentido físico, mas sobretudo de origem espiritual…”

XX

“A sensorialidade está implícita no labirinto e está relacionada não à forma, mas na experiência de nele penetrar…”

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ESPAÇO-CORPÓREO: VIVÊNCIA DO CORPO NO ESPAÇO

“O Parangolé, por Hélio Oiticica denominado cor-estrutura em razão de estruturar ações humanas, efetua o deslocamento do suporte tradicional pra o corpo de quem veste, e permite um brincar, dançar e elaborar a sua forma de participação na arte…”

“…movimento dançante, que envolve não só a visualidade mas todos os sentidos…”

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ESPAÇOS EM CONSTRUÇÃO

A FAVELA:   “…divide-se à noite em vários compartimentos por intermédio de cortinas de tecido ou plástico, pra preservar a intimidade das pessoas…”

A CASA JAPONESA: “…espacialidade única, flexível, a ser dividida por portas de correr de papel ou biombos…”

Os biombos, palavra que vem do japonês Biobu, fruto da chegada dos portugueses no japão. O que gerou toda uma arte no japão. Veja página da embaixada portuguesa:http://www.embaixadadeportugal.jp/centro-cultural/portugal-e-japao/arte-namban/pt/. Seria interessante saber o quanto isso influenciou a arte em Portugal.

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pingback

01. PARANGOLÉS E O VODU DE BENIN
02. Maria Bonomi: tropicália

03 .2. Xilogravuras japonesas eróticas: SHUNGA. Utamaro Kitagawa

04. 3. Xilogravura japonesa [Ukiyo-e] erótica [shunga]: Katsuhika Hokusai
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A INTERNET É MESMO MUITO, MUITO MALUCA

Procurava no Google imagens de Michiko Okano,  para ilustrar conceitos propostos no livro Tokyogaqui: um Japão Imaginado. Junto com ilustrações de templos, torii, pontes, tatames, labirintos, parangolés e penetráveis – todas essas  coisas que eu procurava – veio esta imagem. Recusando entrar em critérios morais, a beleza desta figura é estonteante.  Com um corpo que não deve nada às mulatas exuberantes de Di Cavalcanti. Com toda a certeza Di Cavalcanti não as pintou para edificar e santificar o mundo.

Claro que vacilei em colocar essa imagem aqui. Mas refleti. Artistas, intelectuais, filósofos vivem falando em corpo, mas num corpo santificado, assexuado – um dos horrores do momento atual.   Quando olhamos uma estampa de Caravaggio vemos meninos e anjos pintados com uma sensibilidade agressivamente homoerótica  O mesmo se vê em Leonardo da Vinci e Michelangelo Buonarroti. Ou as mulheres de Modigliani.

Claro que a foto é comum, banal, nada de arte, mas para mim serviu para quebrar tanta seriedade do texto.  E me fez lembrar que, se a arte abre horizontes, ajuda os seres humanos a atravessar os desertos, as montanhas até o abismo final, este percurso da vida e da morte,  essa banal foto alerta que também a vida comum, esta simples e banal imagem comum, da internet, faz muito bem à vida e é uma excepcional manifestação da vida.

E não nos esqueçamos que falar de gravura japonesa teremos de falar em SHUNGA, a arte erótica japonesa.  Alguns textos dizem que esta arte pornográfica era usada com caráter educativo, outros textos contam que o pai doava uma caixa destas gravuras na ocasião do casamento das filhas. E que somente no início do século vinte, quando aumentava o comércio com o ocidente e para limpara a barra dos japoneses, tidos como pornográficos por seus parceiros comerciais, é que as gravuras SHUNGA foram reprimidas no japão. Ou seja, tipicamente um aculturação e vitória do moralismo cristão. Como todo moralismo traz junto a hipocrisia, estas gravuras SHUNGA vão ter preços astronômicos pelo consumo dos ricos ocidentais.  Ver links.

Como atestamos com Caravaggio, Michelangelo Buanarroti, Cézanne, Picasso e tantos outros, nem a chamada arte de cunho religioso,  era muito edificante e vetusta. Nela pulsava muito sexo, erotismo e pornografia – que acho que é a mesma coisa, com nomes diferentes. E a própria conclusão do texto de Michiko Okano é de uma ingenuidade comovente. Nos barracos das favelas não se preserva intimidade alguma. E pelo que vi em filmes japoneses, como Império dos Sentidos, todo mundo vê, ouve  e percebe tudo; e no caso de O Império dos Sentidos, vê, ouve e participa. Biombos, cortinas, praticáveis, papéis japoneses, não garantem qualquer intimidade. E quanto ao japão essa moralidade tem data. Em momento algum do texto a autora toca na questão do erotismo, do sexo e pornografia. Fala várias e várias vezes em dança, esquecendo que dança carrega um imenso conteúdo erótico. E esquece, para o Brasil, que os parangolés também remetem à fantasia, ao carnaval. E como podemos conferir nas danças religiosas de Benin, no pingback acima, há “parangolés” e transe. Vi hoje mesmo entrevista de uma bailarina de flamenco dizendo que dançar, para  ela, era essencialmente entrar em transe. Que o diga Nietzsche/Dionísio. Dionísio o deus que dançava.

Quando peguei o texto de Michiko Okano, como é comum ao comprar um livro novo, fui ver logo as ilustrações que, na verdade, são poucas. Mas este artigo é ilustrado por um desenho de um kimono(desenho reproduzido acima). E o texto se detém muito pouco sobre o kimono e os parangolés. E não diz que os kimonos são usados, hoje, principalmente por gueixas. E que também, no ocidente, estas vestes coloridas são associadas ao erotismo.

Também afasta desse blog os eventuais leitores santarrões.

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links

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01 . Perca Tempo, Blgo do Murilo. Japa Gostosa
02. O Desejo e a Representação nas Gravuras Eróticas Japonesas Shungamore : ESTUDOS JAPONESES : by Amaury A. Garcia

03. Embaixada de Portugal em Tóquio: Arte Nambam

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Escrito por jornaldoporao

via:

http://jornaldoporao.wordpress.com/tag/o-espaco-ma-e-helio-oiticica-michiko-okano/

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