Nietzsche – Errata por Paulo Ghiraldelli Jr.

Primeiro erro: Nietzsche despreza as mulheres. Não. Errado mesmo! Nietzsche tinha apreço por Lou Salomé, talvez até mais que apreço. Admirava as mulheres. Agora, em seus escritos filosóficos, a “mulher” é um personagem (trans-histórico) que se encaixa na sua tipologia dos “fracos” ou “doentes” ou “escravos” ou “servos” ou “homem moderno” ou “cristão” ou “socialista” ou “feminista” ou “judeu”. Qual foi o papel desse tipo? Um dos principais: ter feito a primeira “transvaloração de todos os valores”. Ou seja, em termos éticos: ter instituído a moral da prudência em detrimento da moral da honra. Em termos epistemológicos: ter instituído a atividade racional em detrimento do uso dos instintos. Em termos cosmológicos: ter colaborado com a vontade de potência no que esta empurrou as forças reativas. Em termos de filosofia da história: ter dado alimento ao niilismo. Em termos filosóficos amplos: enquanto elemento fraco, ter colaborado com os criadores da metafísica.

Segundo erro: Nietzsche foi nazista antes do nazismo. Não. Errado, errado, errado! Nietzsche foi um dos primeiros pensadores contemporâneos – e talvez por isso ele seja um dos filósofos do final do século XIX que os filósofos ainda lêem no início do XXI – a criar uma filosofia efetivamente perspectivista e, por isso, pluralista. A epistemologia de Nietzsche é de um pragmatismo avant la lettre e, então, necessariamente perspectivista. Nietzsche nunca acreditou que poderíamos falar em conhecimento ou saber a partir de uma visão “do Olho de Deus”, muito menos uma visão “relativista”. Teríamos de ir escolhendo visões, compondo visões, complexificando visões – mas sempre seria antes visões que visão, nunca uma única compreensão absoluta. No meu jargão rortiano: Nietzsche sempre achou que sem redescrições não faríamos o que ele dizia, mais ou menos, que eram “experiências do pensamento”. Uma filosofia deste tipo não poderia nunca coadunar com o totalitarismo, que exige unidade de doutrina e de olhar.

Terceiro erro: o Übermensch de Nietzsche pode ser assimilado a qualquer coisa como super-homem. Não deve. O Übermensch não pode ter qualquer característica humana. Portanto, é complicado falar em super-homem, uma vez que o super-homem tem algo de homem. Além-do-homem é uma tentativa melhor, pois indica de modo mais fácil que é algo que pode não ser humano. O homem é um ser que valora – assim escreveu Nietzsche. O que ele queria é que pudéssemos eliminar de uma vez por todas os seres que valoram, pois valorar é uma atividade não autêntica, e certamente, não é boa coisa, não nos fez o que existe na terra melhor ou mais feliz. Agora, é errado achar que Nietzsche, não sendo metafísico – de fato a tese de um Nietzsche metafísico, de Heidegger, é controversa –, não poderia falar em Além-do-homem. Este não seria um ponto fixo, metafísico, num futuro. Ele apenas seria o que está … além. Este além não precisa estar em um plano metafísico. Meta-física é além-da-física (ou aquém, depende de como olhamos), mas além do homem (físico) não é metafísico.


Paulo Ghiraldelli Jr.

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