| A semântica que conhecemos é simplesmente aquela parte da gramática que abrange os significados das palavras. Em semiótica, semântica é aquela dimensão do entendimento que nos dá conta dos significados de todo e qualquer signo ou de toda e qualquer composição sígnica ou proposição. A semântica, em semiótica, diz respeito a todo tipo de signo, e não somente das palavras escritas ou faladas e dá conta da compreensão também de imagens e sons e toda e qualquer informação que nos chega pelos sentidos e pela elaboração mental.

Quando queremos saber o significado usual, costumeiro, de uma palavra, recorremos, sem hesitar, ao dicionário. Entretanto, nem sempre o dicionário informa sobre os sentidos derivados em que as palavras são empregadas, como nas metáforas ou quando estamos diante de neologismos e gírias, por exemplo. Por isso os semiólogos, como Umberto Eco, ou lingüistas, como o dinamarquês Hjelmslev, definem a semântica como um vasto universo que compreende desde os significados restritos e usuais até aos significados possíveis, em função de relações associativas. Eco (1984) define muito bem o amplo espectro da semântica e distingue basicamente duas semânticas. São elas:
SEMÂNTICA DICIONARIAL
SEMÂNTICA ENCICLOPÉDICA
A diferença entre as duas semânticas assemelha-se à distinção que usualmente se faz entre sentido amplo e sentido restrito de um termo, atendendo aos variados graus de complexidade do raciocínio solicitado à mente com o fim de se alcançar o entendimento diante da provocação de um signo ou conjunto de signos. Enquanto a semântica dicionarial fornece significados previstos, os mais comuns para cada termo da composição, a semântica enciclopédica ocupa-se dos significados possíveis, considerando as particulares relações entre os termos em casos de composições elaboradas, como nas metáforas, alegorias e ironias.
4.1. IDÉIAS DE HJELMSLEV
Hjelmslev é linguista. Ele analisa o fenômeno da significação tendo como modelo a linguagem falada e escrita. Assim como outros linguistas, Hjelmslev observa que é possível encontrar significado em partículas mínimas formadoras das palavras. Isso porque, mesmo que isoladas pareçam insignificantes, tais partículas mudam, de fato, o sentido de uma palavra ou frase e, portanto, modificam o significado das proposições. Na língua portuguesa, a letra S, por si só, determina uma faceta de significado (de pluralidade) quando acrescentada ao final de uma palavra como no exemplo abaixo:
COELHO e COELHO-S
Evidentemente, um (01) coelho é uma coisa, enquanto que coelhos, já nos remete a + (mais) de um daqueles animais. A letra “S” modifica o entendimento.

Outro exemplo:
FELIZ e IN–FELIZ
A DIFERENÇA DE SIGNIFICADO É ÓBVIA, ENTRE UM SUJEITO FELIZ E UM OUTRO IN-FELIZ. A partícula ou prefixo IN, FAZ A DIFERENÇA! A essas partículas, elementos compositores de palavras e/ou proposições, Hejelmslev denomina grandezas. Às relações entre as grandezas, ele chama função, adotando assim uma terminologia característica da física e da matemática. Percebe-se claramente que, em linguagem falada e escrita, as GRANDEZAS de Hjelmslev, correspondem ao que já conhecemos, EM GRAMÁTICA, como RADICAIS, SUFIXOS, PREFIXOS, DESINÊNCIAS DE TODO O TIPO, QUE INDICAM GÊNERO, TEMPO, QUANTIDADE, ETC. Também em outros tipos de linguagem veremos há elementos básicos que, quando se relacionam ganham sentido, “fazem” significado como em uma pintura: ali estão linhas, formas,
cores-luminosidades, relações e proporções. Eis aí as grandezas semióticas que Hjelmslev, e também outros, como Saussurre, identificam nas línguas faladas e escritas.
Sete notas musicais, tempo, ritmo, compassos, intervalos, arranjo instrumental: são grandezas que compõem a obra musical. O mecanismo da semiótica é aplicável, ao que parece, a todo tipo de linguagem. O que Hjelmslev diz sobre textos, mensagens – escritos ou faladas, pode ser facilmente reconhecido em outras expressões semióticas. Concluí-se, pelo exposto, que o esquema semiótico antecede, ou pelo menos, é simultâneo ao operar de qualquer tipo de linguagem. Assim, o universo dos fenômenos semióticos contém, ou abarca, todos os fenômenos de linguagem. Isso significa que a semiótica – o operar mentalmente com signos – provavelmente precede o advento da fala e das demais “linguagens exteriores” como faculdade humana.
TODOS OS SIGNOS SÃO GRANDEZAS SEMIÓTICAS MAS NEM TODAS AS GRANDEZAS SEMIÓTICAS SÃO SIGNOS
Hjelmslev, Saussurre e outros observam que nem todas as grandezas semióticas são signos. Antes dos signos, teríamos as FIGURAS, que são partículas sem significado cujo VALOR, só aparece QUANDO tais GRANDEZAS estão EM RELAÇÃO entre si.
Exemplo da língua portuguesa
In = não
SOMENTE EM PALAVRAS COMO INFELIZ, INVÁLIDO, INÚTIL, INDECENTE, etc.
O mesmo tipo de exemplo em inglês
Un = não
Esse sentido – de NÃO – atribuído à partícula UN somente aparece quando tal partícula está em relação com outras grandezas significativas como nos seguintes casos abaixo:
Unplugged
Unvariable
Unlovely
Unlucky
Há palavras tão pequenas como partículas, signos diminutos como figuras, mas que com elas não se confundem, como em:
– Vá!
ou ainda
– Go!
Significado não é questão de TAMANHO da expressão mas de como funciona a expressão. De acordo com Hjemslev, se não funciona como proposição, se nada SIGNIFICA então ainda não é signo, é figura – porque SÓ É SIGNO O QUE SIGNIFICA.
4.2. HJELMSLEV: TRECHOS
Eis alguns trechos extraídos de Prolegômenos a uma teoria da linguagem, uma das obras de Hejelmslev sobre os assuntos vistos acima:
“O fato de que uma linguagem é um sistema de signos parece ser uma proposição evidente e fundamental que a teoria deve levar em consideração desde o início (…) quanto ao sentido que se deve atribuir (…) à palavra signo (…) devemos nos ater à definição tradicional (…) Ela nos diz que um signo (…) é (…) acima de tudo, signo de alguma outra coisa, particularidade que nos interessa desde logo pois parece indicar que um “signo” define-se por uma função. Um signo funciona, designa, significa. Opondo-se a um não-signo, um signo é portador de significação.”
“As palavras deixam-se analisar em partes que são igualmente portadoras de significações: radicais, sufixos de derivação e desinências flexionais (…) talvez não seja supérfluo observar que a “significação” atribuída a cada uma dessas grandezas mínimas deve ser compreendida como sendo puramente contextual. Nenhuma das grandezas mínimas, nem mesmo o radical, tem existência “independente” tal que se lhe possa atribuir significações lexicais. (…) não existem significações reconhecíveis outras que não as contextuais (…) Considerado isoladamente, signo algum tem significação. Toda significação nasce de um contexto (…) É necessário, assim, abster-se de acreditar que um substantivo está mais carregado de sentido do que uma preposição, ou uma palavra está mais carregada de significação do que um sufixo, uma derivação ou uma terminação flexional.”
SOBRE LINGUAGEM, REFLETE HEJELMSLEV:
“As línguas não poderiam ser descritas como simples sistemas de signos. A finalidade que lhes atribuímos por suposição faz delas, antes de mais nada, sistemas de signos; mas, conforme sua estrutura interna, elas são sobretudo algo de diferente; sistemas de figuras que podem servir para formar signos. A definição da linguagem como sistema de signos não resiste, portanto, a uma observação mais profunda. Esta definição só presta conta das funções externas da linguagem, das relações da língua com seus fatores extralingüísticos, e não de suas funções internas.”

BIBLIOGRAFIA
ECO, Umberto. Semiótica e filosofia da linguagem. Lisboa: Instituto Piaget, 1984.
HJELMSLEV, Louis Trolle. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. São Paulo: Abril Cultural, 1978 – p.195/197.
SAUSURRE, Ferdinand. As palavras sob as palavras. São Paulo: Abril Cultural, 1978. |