O lixo Big Brother

Por Dom Henrique Soares, Bispo Auxilias da Arquidiocese de Aracajú-SE

A situação é extremamente preocupante: no Brasil, há uma televisão de altíssimo nível técnico e baixíssimo nível de programação. Sem nenhum controle ético por parte da sociedade, os chamados canais abertos (aqueles que se podem assistir gratuitamente)fazem a cabeça dos brasileiros e, com precisão satânica, vão destruindo tudo que encontram pela frente: a sacralidade da família, a fidelidade conjugal, o respeito e veneração dos filhos para com os pais, o sentido de tradição (isto é, saber valorizar e acolher os valores e as experiências das gerações passadas), as virtudes, a castidade, a indissolubilidade do matrimônio, o respeito pela religião, o temor amoroso para com Deus.

Na telinha, tudo é permitido, tudo é bonitinho, tudo é novidade, tudo é relativo! Na telinha, a vida é pra gente bonita, sarada, corpo legal… A vida é sucesso, é romance com final feliz, é amor livre, aberto desimpedido, é vida que cada um faz e constrói como bem quer e entende! Na telinha tem a Xuxa, a Xuxinha, inocente, com rostinho de anjo, que ensina às jovens o amor liberado e o sexo sem amor, somente pra fabricar um filho… Na telinha tem o Gugu, que aprendeu com a Xuxa e também fabricou um bebê… Na telinha tem os debates frívolos do Fantástico, show da vida ilusória… Na telinha tem ainda as novelas que ensinam a trair, a mentir, a explorar e a desvalorizar a família… Na telinha tem o show de baixaria do Ratinho e do programa vespertino da Bandeirantes, o cinismo cafona da Hebe, a ilusão da Fama… Enquanto na realidade que ela, a satânica telinha ajuda a criar, te mos adolescentes grávidas deixando os pais loucos e a o futuro comprometido, jovens com uma visão fútil e superficial da vida, a violência urbana, em grande parte fruto da demolição das famílias e da ausência de Deus na vida das pessoas, os entorpecentes, um culto ridículo do corpo, a pobreza e a injustiça social… E a telinha destruindo valores e criando ilusão…

E quando se questiona a qualidade da programação e se pede alguma forma de controle sobre os meios de comunicação, as respostas são prontinhas: (1) assiste quem quer e quem gosta, (2) a programação é espelho da vida real, (3) controlar e informação é antidemocrático e ditatorial… Assim, com tais desculpas esfarrapadas, a bênção covarde e omissa de nossos dirigentes dos três poderes e a omissão medrosa das várias organizações da sociedade civil – incluindo a Igreja, infelizmente – vai a televisão envenenando, destruindo, invertendo valores, fazendo da futilidade e do paganismo a marca registrada da comunicação brasileira…

Um triste e último exemplo de tudo isso é o atual programa da Globo, o Big Brother (e também aquela outra porcaria, do SBT, chamada Casa dos Artistas…). Observe-se como o Pedro Bial, apresentador global, chama os personagens do programa: “Meus heróis! Meus guerreiros!” – Pobre Brasil! Que tipo de heróis, que guerreiros! E, no entanto, são essas pessoas absolutamente medíocres e vulgares que são indicadas como modelos para os nossos jovens!

Como o programa é feito por pessoas reais, como são na vida, é ainda mais triste e preocupante, porque se pode ver o nível humano tão baixo a que chegamos! Uma semana de convivência e a orgia corria solta… Os palavrões são abundantes, o prato nosso de cada dia… A grande preocupação de todos – assunto de debates, colóquios e até crises – é a forma física e, pra completar a chanchada, esse pessoal, tranqüilamentedá-se as mãos para invocar Jesus… Um jesusinho bem tolinho, invertebrado e inofensivo, que não exige nada, não tem nenhuma influência no comportamento público e privado das pessoas… Um jesusinho de encomenda, a gosto do freguês… que não tem nada a ver com o Jesus vivo e verdadeiro do Evangelho, que é todo carinho, misericórdia e compaixão, mas odeia o fingimento, a hipocrisia, a vulgaridade e a falta de compromisso com ele na vida e exige de nós conversão contínua! Um jesusinho tão bonzinho quanto falsificado… Quanta gente deve ter ficado emocionada com os “heróis” do Pedro Bial cantando “Jesus Cristo, eu estou aqui!”

Até quando a televisão vai assim? Até quando os brasileiros ficaremos calados? Pior ainda: até quando os pais deixarão correr solta a programação televisiva em suas casas sem conversarem sobre o problema com seus filhos e sem exercerem uma sábia e equilibrada censura? Isso mesmo: censura! Os pais devem ter a responsabilidade de saber a que programas de TV seus filhos assistem, que sites da internet seus filhos visitam e, assim, orientar, conversar, analisar com eles o conteúdo de toda essa parafernália de comunicação e, se preciso, censurar este ou aquele programa. Censura com amor, censura com explicação dos motivos, não é mal; é bem! Ninguém é feliz na vida fazendo tudo que quer,ninguém amadurece se não conhece limites; ninguém é verdadeiramente humano se não edifica a vida sobre valores sólidos… E ninguém terá valores sólidos se não aprende desde cedo a escolher, selecionar, buscar o que é belo e bom, evitando o que polui o coração, mancha a consciência e deturpa a razão!

Aqui não se trata de ser moralista, mas de chamar atenção para uma realidade muito grave que tem provocado danos seríssimos na sociedade. Quem dera que de um modo ou de outro, estas linha de editorial servissem para fazer pensar e discutir e modificar o comportamento e as atitudes de algumas pessoas diante dos meios de comunicação.

post: http://www.comshalom.org/blog/carmadelio/28414-o-lixo-big-brother-bispo-da-igreja-se-manifesta-sobre-programa

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Martin Klimas – Sincretismo Cromático

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A Parábola do Filho Pródigo – Análise Semiótica por JAIRO POSTAL

ANÁLISE SEMIÓTICA que usa a teoria de significado proposta pelo lingüista lituano Algirdas Julien Greimas, que considera o trabalho de construção do sentido como um percurso gerativo, que vai do mais simples e abstrato ao mais complexo e concreto, em que cada um dos três níveis de profundidade é passível de descrições autônomas.

A parábola – do grego parabolê, justaposição de duas coisas (= um mundo real projetado num mundo imaginário) – é um tipo de discurso recheado de figuras que tornam a mensagem mais vívida, mais perceptível, criando o que Greimas denominou simulacro. É possível, dessa maneira, por meio da leitura desse gênero literário, presenciar nitidamente um “espetáculo” em que se identifica uma pequena encenação com personagens e coisas que passam por constantes transformações. Assim, em A parábola do filho pródigo – registrada no Evangelho de Lucas, Capítulo 15, versículos 11 a 32 – serão explicitados os mecanismos implícitos de estruturação e de interpretação de texto, baseando-se, para isso, no modelo teórico de análise discursiva de linha francesa.

  • texto-base: a parábola do filho pródigo
11 E (Jesus) disse: Um certo homem tinha dois
filhos.
12 E o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me
a parte da fazenda que me pertence. E ele repartiu
por eles a fazenda.
13 E, poucos dias depois, o filho mais novo, ajuntando
tudo, partiu para uma terra longínqua e ali
desperdiçou sua fazenda, vivendo dissolutamente.
_____
14 E, havendo ele gastado tudo, houve naquela
terra uma grande fome, e começou a padecer
necessidades.
15 E foi e chegou-se a um dos cidadãos daquela
terra, o qual o mandou para os seus campos a
apascentar porcos.
16 E desejava encher o seu estômago com as
bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe
dava nada.
17 E, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores
de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui
pereço de fome!
18 Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e
dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti.

19 Já não sou digno de ser chamado teu filho;
faze-me como um dos teus trabalhadores.
20 E, levantando-se, foi para seu pai; e, quando
ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de
íntima compaixão, e, correndo, lançou-se-lhe ao
pescoço, e o beijou.
21 E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e
perante ti e já não sou digno de ser chamado teu
filho.
22 Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa
a melhor roupa, e vesti-lho, e ponde-lhe
um anel na mão e sandália nos pés,
23 e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos
e alegremo-nos,
24 porque este meu filho estava morto e reviveu;
tinha-se perdido e foi achado. E começaram a
alegrar-se.
25 E o seu filho mais velho estava no campo; e,
quando veio e chegou perto de casa, ouviu a
música e as danças.
26 E, chamando um dos servos, perguntou-lhe
que era aquilo.
27 E ele lhe disse: Veio teu irmão; e teu pai matou
o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo.
28 Mas ele se indignou e não queria entrar. E,
saindo o pai, instava com ele.
29 Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que
te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir
o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito
para alegrar-me com os meus amigos.
30 Vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou
a tua fazenda com as meretrizes, mataste-lhe o
bezerro cevado.
31 E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo,
e todas as minhas coisas são tuas.
32 Mas era justo alegrarmo-nos e regozijarmonos,
porque este teu irmão estava morto e reviveu;
tinha-se perdido e foi achado.
  •  nível fundamental

-Semântica fundamental
Num nível mais abstrato, percebem-se, em A parábola do filho pródigo, duas oposições semânticas a partir das quais se constrói o sentido do texto: /independência/ versus /dependência/ e /riqueza/ versus /pobreza/.

-Sintaxe fundamental
No início da narrativa, há uma afirmação da /independência/, quando o filho mais moço, após receber a porção da herança que lhe cabia, parte para uma terra longínqua (“…ajuntando tudo, partiu para uma terra longínqua…”). No momento em que o rapaz, após ter gastado toda a herança, cai em si, ocorre uma negação da /independência/(“Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lheei: Pai, pequei contra o céu e perante ti”). Depois, quando o filho retorna à casa paterna, dá-se uma afirmação da /dependência/ (“E, levantando-se, foipara seu pai...”).

Levando em consideração que, após sair de casa, o jovem atingiu o ápice da degradação e da desgraça (“…desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam…”), o termo /independência/ é, no texto, disfórico, enquanto o termo /dependência/ é eufórico, ou seja, o primeiro tem um valor negativo; o segundo, um valor positivo:

independência → não-independência → dependência

(disforia)         –        (não-disforia)           –         (euforia)

Paralelamente, há uma afirmação da /riqueza, quando o rapaz recebe a herança [“E ele (o pai) repartiu por eles (os filhos) a fazenda”]; porém, no momento em que ele a desperdiça, levando uma vida dissoluta, há uma negação da /riqueza/ (“…ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente”). Após ter gastado tudo, há uma afirmação da /pobreza/ (“…havendo ele  gastado tudo…”; “…começou a padecer necessidades”). Então, nesse caso, a /riqueza/ é disfórica, pois foi o valor que possibilitou ao jovem a independência, e a pobreza é /eufórica/, uma vez que o reconduziu à dependência:

riqueza → não-riqueza → pobreza
(disforia) (não-disforia) (euforia)

  •  nível narrativo

-Sintaxe narrativa
Em A parábola do filho pródigo, tem-se a seguinte narrativa mínima: ao receber a herança do pai, o filho mais novo entra em conjunção com o objeto de valor riqueza, adquirindo, assim, competência de sair de casa. Ao partir para uma terra distante, o filho entra em conjunção com o objeto de valor independência; depois, ao gastar toda a herança e voltar à casa paterna, perde esses objetos, passando a manter com eles relação de disjunção.

Dessa forma, o programa de competência de poder sair de casa com o programa de performance de sair de casa formam o percurso do sujeito filho mais moço. Além desse percurso, outros dois merecem destaque: o da manipulação e o da sanção.

Em A parábola do filho pródigo, o filho mais moço, ao reivindicar a parte da herança que lhe assiste (“Pai, dá-me a parte da fazenda que me pertence”), manipula o pai por intimidação, pois, como existe na sociedade um “contrato” que determina ser obrigação paterna garantir o direito dos filhos, o pai teme cometer injustiça. Mais tarde, o filho, ao retornar a casa, opera mais uma manipulação; agora, porém, por sedução, pois o rapaz, usando um discurso ensaiado (“Pai, pequei contra o céu e perante ti e já não sou digno de ser chamado teu filho”),
dirige-se ao pai respeitosa e submissamente, colocando-o em uma posição de superioridade, ao mesmo tempo em que se autodeprecia, afirmando-se um filho indigno. O filho mais velho, porém, ao saber que o pai recebera o filho mais novo com festa, indigna-se. Busca manipulá-lo por provocação (“Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu andamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos. Vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou a tua fazenda com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado”), pois implicitamente exprime um juízo negativo a respeito da competência de justiça paterna, tentando persuadi-lo a não receber o filho pródigo. O pai, por sua vez, escapa à manipulação,  porque não lhe importa o que o filho mais novo fez, mas sim tê-lo de volta. Então, para apaziguar o primogênito, o pai recorre a uma manipulação por sedução (“Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas”), mostrando-lhe que sempre o amou por nunca se ter afastado da presença paterna. Nesse último caso, a narrativa termina antes de se constatar se a manipulação foi ou não realizada.

O percurso da sanção é aquele em que ocorre a constatação de que a performance realizou-se e, por conseguinte, o reconhecimento do sujeito que operou a transformação. Eventualmente, nessa fase, distribuem-se prêmios ou castigos. Em A parábola do filho pródigo, a prodigalidade é castigada (“…e começou a padecer necessidades”, “E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam…”), pois o sujeito filho mais novo não cumpre o “contrato” de administrar eficientemente a riqueza como se pressupõe de qualquer pessoa que receba uma herança; o retorno à casa paterna, por sua vez, é premiado pelo pai (“Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão e sandálias nos pés, e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos e alegremo-nos…”), pois o filho reassume o contrato inicial de estar na casa paterna, que foi rompido quando entrou em conjunção com a independência.

-Semântica narrativa
Na parábola em análise, o filho, quando manipula o pai a dar-lhe a herança, não parece ser um gastador, o que subjaz ao fato de o pai sentir-se no dever de atender-lhe o pedido. De posse, porém, do dinheiro, gasta-o dissolutamente. Configurou-se, assim, a modalidade veridictória do segredo. Quando o filho retorna a casa, persuadindo o pai de que está arrependido (“Pai, pequei contra o céu e perante ti e já não sou digno de ser chamado de teu filho”), sua fala é interpretada como um dizer verdadeiro (“…este teu irmão estava morto e reviveu; tinha-se
perdido e foi achado”). Finalmente, o filho mais velho, quando julga o pai injusto, achando que ele dava mais reconhecimento ao irmão mais novo, incorre num erro de interpretação, pois o pai nunca deixou de reconhecê-lo (“Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas”). Configurou-se, assim, a modalidade da mentira.

Figura 1. Modalidades veridictórias em A parábola do filho pródigo.

As qualificações modais geram, por sua vez, efeitos de sentido que são denominados paixões. Em A parábola do filho pródigo, o filho mais novo, ao pedir antecipadamente a herança ao pai, manifesta uma paixão simples: a ambição, produzida pelo querer ser rico. Uma vez concretizado esse desejo, o poder e o querer gastar do filho produzem o efeito de sentido da prodigalidade. Segundo Greimas (1993, p. 115), “pródigo é quem faz ‘despesas excessivas’, quem ‘dilapida seu bem’”. Dissipar é apagar, sem deixar vestígio, uma grandeza qualquer (“havendo ele gastado tudo…”). Cumpre frisar que a esse querer gastar deve acrescentar-se o advérbio “dissolutamente” (“ali desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente”), o que caracteriza a pejoração. Quando o filho pródigo retorna a casa, o pai não apenas lhe perdoa (“… lançou-se-lhe ao pescoço, e o beijou…”), expressando a paixão da misericórdia, como também manifesta a paixão da alegria, graças à obtenção do objeto, que, no caso, é o filho (“…comamos e alegremo-nos…”). O irmão mais velho indignase ao saber que o pai está dando uma festa pela volta do filho mais moço. Configura-se, assim, a paixão da inveja, entendida, segundo Greimas (1993, p. 176), como “sentimento de tristeza, de irritação ou de ódio que nos anima contra quem possui um bem que não temos” ou o “desejo de gozar de uma vantagem, de um prazer igual ao de outrem”. Na parábola em análise, a inveja do irmão mais velho é caracterizada pela segunda definição (“… nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos”). O querer ser reconhecido do irmão mais velho (“Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento…”) implica querer que o outro não seja, isto é, o valor desejado pelo irmão mais velho (reconhecimento) está em conjunção com outro sujeito (irmão mais novo).

  •  nível discursivo

-Sintaxe discursiva
Percebe-se, nessa parábola, uma hierarquia na delegação de voz no discurso: o enunciador atribui ao narrador [= aquele quem diz: “E (Jesus) disse:] a voz, isto é, o dever e o poder narrar o discurso em seu lugar. Assim instalado, o narrador, por meio do discurso direto, cede internamente a palavra a um interlocutor (Jesus), que, por sua vez, delega a palavra a outros interlocutores (o filho mais novo, o pai, um dos servos, o filho mais velho).

Esquema 2. Delegação de voz discursiva em A parábola do filho pródigo

No texto em exame, o enunciador opera desembreagens internas, pois o narrador dá a palavra às pessoas do enunciado ou da enunciação já instaladas no enunciado. Assim, intercalam-se a desembreagem enunciva e a desembreagem enunciativa. O narrador vale-se da desembreagem enunciva, pois projeta no enunciado um ele [“E (Jesus) disse:
…”]; o interlocutor de primeiro grau (Jesus), da mesma forma, instala no interior do enunciado os actantes do enunciado (terceira pessoa – “Um certo homem…”, “…ele se indignou e não queria entrar…” etc.), os espaços do enunciado (aqueles que não estão relacionados ao aqui, mas ao espaço do  – “…partiu para uma terra longínqua…”, “… um dos cidadãos daquela terra…” etc.) e os tempos do enunciado (tempos do então: pretérito imperfeito, pretérito perfeito 2 – “E o seu filho mais velho estava no campo; e, quando veio e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças” etc.). Os interlocutores de segundo grau, por sua vez, valem-se da desembreagem enunciativa, projetando, no enunciado, o eu-aqui- agora da enunciação, instalando, assim, os actantes enunciativos (eu/tu – “Pai, dá-me a parte…”), os espaços enunciativos (aqui/aí – “…eu aqui pereço de fome”) e os tempos enunciativos (presente, pretérito perfeito 1 e futuro do presente – “Levantarme-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e perante ti”).

Na sintaxe do discurso, os efeitos de realidade decorrem, em geral, dessas desembreagens internas. Quando, no interior do texto, cede-se a palavra aos interlocutores, em discurso direto, constrói-se uma cena que serve de referente ao texto, cria-se a ilusão de situação real de diálogo [“E ele (um dos servos) lhe (filho mais velho) disse: Veio teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo”]. Assim, Jesus, o interlocutor, não “disse que o servo disse”, mas tratou de repetir “tais quais” suas palavras. O mesmo faz o narrador no início do texto [“E (Jesus) disse:”]. Teria Jesus dito exatamente essa parábola, nessa ordem, com esses termos, nesse contexto? Pouco importa, pois a ilusão de realidade foi conseguida.

-Semântica discursiva
As parábolas são, por natureza, textos figurativos, pois constroem um simulacro da realidade, representando, para isso, o mundo por meio de figuras.

Em A parábola do filho pródigo, a figura terra longínqua reveste o tema da independência; as figuras desperdiçar a fazenda, viver dissolutamente e gastar tudo investem o tema da má administração de bens; as figuras Pai e pecar contra o céu compõem o tema religioso; as figuras fazenda (herança), roupa, anel, sandália, bezerro cevado e abundância de pão recobrem o tema da riqueza/fartura; grande fome, padecer necessidades, desejar comer a comida dos porcos formam o tema da pobreza/escassez; comer, alegrar-se, música e danças (= festa), o tema da alegria; meretrizes, o tema da sexualidade, da devassidão etc.

No texto em exame, os percursos figurativos apresentados desenrolam, pelo menos, três leituras temáticas, o que o torna um discurso pluri-isotópico:

a) tema religioso do arrependimento do pecador;

b) tema socioeconômico da má administração de bens;

c) tema psicológico da passagem da adolescência à idade adulta marcada pelo desejo de independência e pela iniciação sexual.

O lexema pai, com suas acepções possíveis de Deus ou de genitor, conecta duas leituras temáticas. Assim, quando lido segundo uma isotopia divina, estabelece a leitura do homem que se afasta de Deus e cai em pecado; quando lido segundo uma isotopia humana, o termo pai estabelece a leitura do filho que sai de casa e leva uma vida dissoluta. O lexema dissoluto (gerador da forma adverbial dissolutamente), por sua vez, com suas acepções possíveis de dissolução, decomposição ou de depravação, devassidão, abre, na leitura da isotopia humana, duas outras leituras: a da má administração da herança ou a da vida devassa. Interpretando o termo pai como Deus, estabelece-se um plano de leitura religiosa. Dessa forma, terra longínqua figurativiza qualquer lugar distante da presença de Deus, no qual o homem – figurativizado em filho mais moço – prioriza os prazeres materiais (figurativizados em herança, vida dissoluta, meretrizes etc.), caindo, assim, em pecado; em contrapartida, casa paterna figurativiza a casa de Deus, a comunhão espiritual com o Pai. Os porcos são animais considerados impuros pelos judeus. Apascentá-los e desejar comer o que eles comem figurativiza o estado deplorável a que o homem chega por distanciar-se de Deus; o bezerro cevado, por sua vez, figurativiza aquilo que é nutrido e guardado para uma ocasião muito especial (na parábola em questão, esse momento é o arrependimento do pecador). Somente os cativos andavam descalços. O filho descalço figurativiza, então, o homem escravo do pecado. Colocar as sandálias, portanto, figurativiza a libertação da vida pecaminosa. O anel figurativiza a aliança de Deus com o homem. A lamentação figurativiza a tristeza que há na vida do pecador; a música, ao contrário, a alegria de Deus por receber um pecador convertido. Ninguém lhe dava nada mostra a falta de compaixão e de misericórdia dos moradores da Terra em oposição ao Pai que tudo dá a quem está em comunhão com Ele. O filho mais velho figurativiza o homem que, julgando nunca ter saído dos caminhos do Pai, inconforma-se com a misericórdia de Deus com os ímpios. Entendendo, porém, o termo pai como genitor, estabelecem-se outros dois planos de leitura interrelacionados: um de caráter socioeconômico; outro, psicológico. A leitura socioeconômica manifesta-se ao figurativizar um filho ambicioso e perdulário como filho mais moço.

Figura 3. Conectores isotópicos em A parábola do filho pródigo.

O lugar em que o filho vai morar sozinho é figurativizado como terra longínqua. A irresponsabilidade administrativo-financeira é figurativizada em desperdiçou a sua fazenda, vivendo dissolutamente; o estado de mendicância a que chega o perdulário após gastar tudo é figurativizado em desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, ninguém lhe dava nada, estava morto, tinhase perdido etc.
A leitura psicológica, por sua vez, é revelada ao figurativizar um adolescente como filho mais moço, que, estando independente do pai (uma terra longínqua),inicia a vida sexual, chegando à devassidão (desperdiçando a fazenda com as meretrizes).

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-POSTAL, Jairo. Análise semiótica do texto A parábola do filho pródigo. Integração: ensino, pesquisa, extensão. São Paulo: Centro de Pesquisa da Universidade São Judas Tadeu, ano 13, n.48, p. 83-88, jan./fev/mar. 2007.

-Parábolas e paixões. / Jairo Postal.  – São Paulo, 2007.

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Zombies taking a walk in CWB

Amy back from black

 

 

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A Razão e o Razoável – Héctor Leguizamón

A partir da razão se pode pensar em dois tipos de propriedade: o razoável e o racional. Um pensamento razoável se preocupa em saber se os princípios que guiam as ações na vida são aceitáveis ou se os atos de alguém são compatíveis com esses princípios. Um homem razoável não é somente uma pessoa capaz de concatenar corretamente ideias lógicas. É, antes de tudo, um homem que terá critério e que saberá escolher adequadamente os princípios que vão motivar suas ações, graças a seu senso moral e a sua experiência de vida.

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Explicável ou Aceitável

A conduta de um criminoso não é razoável mesmo que possa ser racional. Pode ser explicada por motivos psicológicos ou sociais. Portanto, pode haver uma lógica em seu comportamento, sem que por isso compartilhemos suas motivações nem consideremos sua atitude correta.

Héctor Leguizamón – Atlas Básico de Filosofia

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Socialismo Libertário Anarquista

O Socialismo Libertário proposto pelo Anarquismo torna objetiva a luta contra qualquer forma de autoritarismo, permitindo o surgimento da originalidade única das pessoas.

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O Anarquismo é hoje a única ideologia que se opõe ao capitalismo burguês, uma das principais fontes de manutenção da dominação, do autoritarismo e das injustiças sociais.

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“La passion de la destruction est en même temps une passion créatrice ” (Die Lust der Zerstörung ist zugleich eine schaffende Lust): c’est par ces mots que Michel Bakounine conclut en 1842 son premier texte révolutionnaire, La Réaction en Allemagne .

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Estímulo Sináptico

Constructo

KOAN

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REICH – Gênio ou Louco ?



     Considerado gênio por alguns e louco por outros, o austríaco Wilhelm Reich foi o maior revolucionário da Psicologia deste século. Pioneiro da Revolução Sexual, precursor dos movimentos ecológicos e da psiquiatria biosocial, Reich desenvolveu também artefatos usados na cura do câncer e na diminuição dos efeitos negativos da energia nuclear.
Pouco se conhece soube o pensamento de W. Reich, porque não há muitas fontes de informação e suas teses são sonegadas nas universidades de psicologia e psiquiatria. Há quem se refira a Reich por seus escritos freudianos-marxistas, outros por seus textos psicanalíticos, além de seus escritos sobre Deus e o Diabo.
Durante anos, vários movimentos revolucionários recuperaram parte de sua obra, sobretudo seus escritos sócio-políticos, seguindo a tese de que não há revolução social sem revolução sexual, entendendo por sexualidade as relações afetivas, comunicantes, pessoais, etc. Reich reivindicou a função da sexualidade não como uma mera realização do coito, mas como a fusão com o outro. A vivência plena do amor e da sexualidade era vista por ele como fator indispensável para a satisfação emocional.
Todo o seu pensamento indica que é preciso uma mudança radical nas relações humanas. Associa a separação de um bebê do corpo da mãe na hora do parto com o assassinato de Cristo, com a psicose, com o fascismo e com a função do orgasmo. A complexidade de seu discurso é algo que vai além de sua época.


A sua mais importante contribuição, que revolucionou toda a Psicologia, foi provar que a neurose é produzida socialmente, instalando-se em todo o corpo e não apenas na mente das pessoas. O conceito de couraça neuro-muscular do caráter mostra como a neurose se dá através da estagnação da energia vital. No livro “A Função do Orgasmo”, Reich coloca que o orgasmo sexual pleno e satisfatório é o regulador biológico da harmonia vital. Militante socialista, despertou a atenção para o fato de que as neuroses eram provocadas pelo desvio da originalidade das pessoas, através de bloqueios à sexualidade e à afetividade, portanto um fenômeno sócio-político. A partir daí, passou a dar um novo enfoque a Psicologia, centrado no indivíduo, seu corpo e suas relações sociais.


Wilhelm Reich foi expulso da sociedade Psicanalítica por divergências teóricas e ligações com a política; e também do Partido Comunista por suas denúncias contra o autoritarismo reinante. Perseguido pelo nazismo, após percorrer vários países europeus, se instala nos Estado Unidos, onde passa a pesquisar fenômenos climáticos, caixas de acumulação de orgônio, etc. Em 1956, Reich é detido por se recusar a comparecer ao Tribunal para comprovar os efeitos terapêuticos dos acumuladores. Um ano após sua prisão, Reich morre na cadeia deixando um legado para as gerações futuras que ainda surpreendem-se com sua originalidade e rebeldia.

João da Mata

post: Artigo extraído do Jornal da Soma, TESÃO – prazer & anarquia, uma publicação do Coletivo Anarquista Brancaleone.

 http://www.oocities.org/hotsprings/sauna/2797/tesao61.html

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A poesia de Victor Hugo – Desejo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga “Isso é meu”,
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar “.

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sinKing

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Schadenfreude

Michael Kenna

Michael Kenna

Michael Kenna

Nele

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Lorenzo Oggiano – Quasi-Objects (3d generated videos and prints)

Life is a real and autonomous process

independent from any specific material manifestation

reblogging: http://butdoesitfloat.com/2716397/Life-is-a-real-and-autonomous-process-independent-from-any-specific

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the great contributions of Dennis Ritchie and Steve Jobs

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