Sintagma / Paradigma e Saussure

A visão saussuriana da língua como um sistema de valores está intimamente associada à sua célebre frase: “na língua só existem diferenças”, ou seja , ela funciona sincronicamente e com base em relações opositivas (paradigmáticas) no sistema e contrastivas (sintagmáticas) no discurso. Tendo como ponto de partida as idéias motrizes contidas no Curso de lingüística geral, formaram-se várias escolas estruturalistas (fonológica de Praga, estilística de Genebra, funcionalista de Paris, glossemática de Copenhague), que deram conseqüência e continuidade ao pensamento infelizmente inacabado do genial fundador da Lingüística moderna. A visão da língua como um sistema semiológico, a teoria do signo, com seus dois princípios fundamentais: arbitrariedade / linearidade, a diferença entre sincronia (funcionamento) e diacronia (evolução), a distinção fonética / fonologia, fone / fonema, a dupla articulação da linguagem (1ª = plano do conteúdo ou morfossintaxe; 2ª = plano da expressão ou fonologia), as noções de morfema e gramema, a tricotomia língua / fala / norma são categorias lingüísticas extremamente férteis, todas decorrentes do pensamento de Saussure e hoje definitivamente incorporadas às ciências da linguagem.

tumblr_mqv79biChT1qz6f9yo1_500

O paradigma é uma espécie de “banco de reservas” da língua, um conjunto de unidades suscetíveis de aparecer num mesmo contexto. Desse modo, as unidades do paradigma se opõem, pois uma exclui a outra: se uma está presente, as outras estão ausentes. É a chamada oposição distintiva, que estabelece a diferença entre signos como gado e gato ou entre formas 16W9verbais como estudava e estudara, formados respectivamente a partir da oposição sonoridade / não-sonoridade e pretérito imperfeito / mais-que-perfeito. A noção de paradigma suscita, pois, a idéia de relação entre unidades alternativas. É uma espécie de reserva virtual da língua.

Define-se o sintagma como “a combinação de formas mínimas numa unidade lingüística superior”. Trata-se, portanto, de relações (relação = dependência, função) onde o que existe, em essência, é a reciprocidade, a coexistência ou solidariedade entre os elementos presentes na cadeia da fala. Essas relações sintagmáticas ou de reciprocidade existem, a nosso ver, em todos os planos da língua: fônico, mórfico e sintático, ao contrário do que deixa entrever a definição do próprio Saussure, que nos induz a conceber o sintagma apenas nos planos mórfico e sintático. Sendo assim, o sintagma, em sentido lato, é0_19f3b_9a545aeb_XL toda e qualquer combinação de unidades lingüísticas na seqüência de sons da fala, a serviço da rede de relações da língua. Por exemplo, no plano fônico, a relação entre uma vogal e uma semivogal para formar o ditongo (ai /ay/); no nível mórfico, a própria palavra, com seus constituintes imediatos, é um sintagma lexical (am + a + va + s); sintaticamente, a relação sujeito + predicado caracteriza o sintagma oracional (Pedro / estudou a lição.).

Uma Visão Estilística

No plano da expressão, as relações paradigmáticas operam com base na similaridade de sons. É o caso das rimas (“Mas que dizer do poeta / numa prova escolar? / Que ele é meio pateta / e não sabe rimar?”, Carlos Drummond de Andrade), aliterações (“Vozes veladas, veludosas vozes”, Cruz e Model in Space Helmet and Bikini, 1952Sousa), assonâncias (“Tíbios flautins finíssimos gritavam”, Olavo Bilac), homoteleutos [ou homeoteleutos] (“Rita não tem cultura, mas tem finura”, Machado de Assis).

No plano do conteúdo, as relações paradigmáticas baseiam-se na similaridade de sentido, na associação entre o termo presente na frase e a simbologia que ele desperta em nossa mente. É o caso da metáfora: “O pavão é um arco-íris de plumas.” (Rubem Braga), ou seja, arco-íris = semicírculo ou arco multicor. Embora presente no texto em prosa, a metáfora é mais usual na poesia.

Já a metonímia, mais comum na prosa, por basear-se numa relação de contigüidade de sentido, atua no eixo sintagmático. Ex.: O autor pela obra: “Gosto de ler Machado de Assis”; a parte pelo todo: “Os desabrigados ficaram sem teto” (= casa); o continente pelo conteúdo: “Tomei um copo de vinho” (o vinho contido no copo), etc.

via:

CARVALHO, Castelar de. Para compreender Saussure. 12ª ed. Petrópolis: Vozes, 2003.

1490496181_c0337b69ec

.

.

.

.

.

.

Posted in Body | Leave a comment

Edward Hopper and the Abstract Painting

Cape Cod Evening Art

Hopper’s own words about his work were submitted in 1953 to the journal, Reality under the title Statement:

Dugmore-5313_hiGreat art is the outward expression of an inner life in the artist, and this inner life will result in his personal vision of the world. No amount of skillful invention can replace the essential element of imagination. One of the weaknesses of much abstract painting is the attempt to substitute the inventions of the human intellect for a private imaginative conception. The inner life of a human being is a vast and varied realm and does not concern itself alone with stimulating arrangements of color, form and design. The term life used in art is something not to be held in contempt, for it implies all of existence and the province of art is to react to it and not to shun it. Painting will have to deal more fully and less obliquely with life and nature’s phenomena before it can again become great.

.

via:
http://www.keartanddesign.com/blog/2013-05-17-artist-inspiration-edward-hopper

tumblr_lajn4eiix41qbwu8so1_12804.jale erzenRToddKing

.

.

..

.

.

.

.

Posted in Body | Leave a comment

Tristan Tzara

LES FÊNETRES SE OUVRAIENT
les fênetres s’ouvraient sur une herbe de rêve
enchevêtrées parmi les courses de l’eau
au feu des briques sauvages
trempaient dans le vin
les épais triomphes des couchants morcelés
bientôt la douleur ne sera plus vivante
et la dérnière lueur fauchera et son trouble
et la dure amitié qu’un ressort tendu
liait à son ombre – je n´était que son ombre.

Arthur Tress - Boy in TV set - Boston 71

AS JANELAS SE ABRIAM
as janelas se abriam sobre uma erva de sonho
confundidas entre os cursos da água
no calor dos tijolos selvagens
encharcavam no vinho
os espessos triunfos de poentes partidos
em breve a dor já não estará viva
e o último luar ceifará e sua emoção
e a dura amizade que uma mola em tensão
ligava à sua sombra – eu era apenas sua sombra.

.

.

.

.

.

.

.

Posted in Mind | Leave a comment

Good Old Punk Rock of the Andes – Inti Illimani

 

Los arados, los sembríos
las cosechas y su amor,
dan al indio en este mundo
alegría en su dolor.

Por donde quiera que vaya
toca triste el rondador
porque en su alma hay sólo pena,
sufrimiento y gran dolor

.

 

.

.

..

 

Posted in Body | Leave a comment

Goethe e a Doutrina das Cores

O trabalho de Goethe é uma tentativa de ordenar e combinar os fenômenos cromáticos para entender os princípios que os regem e como essa ordenação nos leva a uma diferenciação em termos de estética.
c1ab5ad44a5c6159b2d75016ad86fc59ee380b18_m
Cada olhar envolve uma observação, cada observação uma reflexão, cada reflexão uma síntese: ao olharmos atentamente para o mundo já estamos teorizando. Devemos, porém, teorizar e proceder com consciência, autoconhecimento, liberdade e – se for preciso usar uma palavra audaciosa – com ironia: tal destreza é indispensável para que a abstração, que receiamos, não seja prejudicial, e o resultado empírico, que desejamos, nos seja útil e vital. (Doutrina das Cores. Esboço de uma Doutrina das Cores – Goethe (tradução de Marco Giannotti)
Para Goethe a sensibilidade não é apenas receptividade, mas também impulsividade.

As cores devem ser interpretadas duplamente como Leiden (paixão) e como Tat (ação) da luz.
As cores são ações e paixões da luz. Nesse sentido, podemos esperar delas alguma indicação sobre a luz. Na verdade, luz e cores se relacionam perfeitamente, embora devamos pensá-las como pertencendo à natureza em seu todo: é ela inteira que assim quer se revelar ao sentido da visão. (Doutrina das Cores. Esboço de uma Doutrina das Cores – Goethe (tradução de Marco Giannotti)
Couleur_tertiaire
(…) a cor é um fenômeno elementar da natureza para sentido da visão, que, como todos os demais, se manifesta ao se dividir e opor, se misturar e fundir, se intensificar e neutralizar, ser compartilhado e repartido, podendo ser mais bem intuído e concebido nessas fórmulas gerais da natureza. (Doutrina das Cores. Esboço de uma Doutrina das Cores – Introdução – Goethe (tradução de Marco Giannotti)
2641076-mosaic-color-matrix-op-art-vector
Consideremos, em primeiro lugar, as cores na medida em que pertencem ao olho e dependem de sua capacidade de agir e reagir. Em seguida, despertam a atenção na medida em que as percebemos através dos meios incolores ou com o auxílio destes. Por fim, são dignas de nota na medida em que podemos pensá-las como fazendo parte do objeto. Chamamos as primeiras de fisiológicas, as segundas de físicas e as terceiras de químicas. As primeiras são constantemente fugidias, as segundas são passageiras, embora tenham uma certa permanência. As últimas têm longa duração. (Doutrina das Cores. Esboço de uma Doutrina das Cores – Introdução – Goethe (tradução de Marco Giannotti)
Color wheel 1929
via:
.
.
.
.
.
Posted in Mind | Leave a comment

Contingência

Em filosofia e lógica,  é o status de proposições que não são necessariamente verdadeiras nem necessariamente falsas. Há quatro classes de proposições, algumas das quais se sobrepõem:

tumblr_mqnw9c3cak1qz6f9yo1_1280

  • proposições necessariamente verdadeiras ou Tautologias, que devem ser verdadeiras, não importa quais são ou poderiam ser as circunstâncias (exemplos: 2 + 2 = 4; Nenhum solteiro é casado).Geralmente o que se entende por “proposição necessária” é a proposição necessariamente verdadeira.
  • proposições necessariamente falsas ou Contradições, que devem ser falsas, não importa quais são ou poderiam ser as circunstâncias (exemplos: 2 + 2 = 5; Ana é mais alta e é mais baixa que Beto).
  • proposições contingentes, que não são necessariamente verdadeiras nem necessariamente falsas (exemplos: Há apenas três planetas; Há mais que três planetas).
  • proposições possíveis, que são verdadeiras ou poderiam ter sido verdadeiras sob certas circunstâncias (exemplos: 2 + 2 = 4; Há apenas três planetas; Há mais que três planetas).

Todas as proposições necessariamente verdadeiras e todas as proposições contingentes também são proposições possíveis.

7fd1cec18f0a373f856977da3390b3efccf9f2f7_m.

.

.

.

.

.

.

 

Posted in Mind | Leave a comment

Language Logic

tumblr_mt2qpfgnRn1qz6f9yo1_1280

Posted in Mind | Leave a comment

A revolução de Mao

“A revolução não é o convite para um jantar, a composição de uma obra literária, a pintura de um quadro ou a confecção de um bordado, ela não pode ser assim tão refinada, calma e delicada, tão branda, tão afável e cortês, comedida e generosa. A revolução é uma insurreição, é um ato de violência pelo qual uma classe derruba a outra.” Mao Tse-Tung

7aad292e163010f11c6017aa4922ae2365f254ce_m

.

.

.

..

.

.

.

.

.

.

.

..

.

.

.

.

.

Posted in Body | Leave a comment

Tradução Intersemiótica

 

Tradução intralingual (reformulação), que “consiste na interpretação dos signos verbais por meio de outros signos da mesma língua”

hd_77c6dadd73722743604d33dfa0110630

Tradução interlingual (tradução propriamente dita), que “consiste na interpretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua”

6d5a44c404a98f0440d6e4f94e85879b2ba0661b_m

Tradução intersemiótica (transmutação), que “consiste na interpretação dos signos verbais por meio de signos não-verbais”

70

.

Roman Jakobson (1959) “Aspectos linguísticos da tradução” (On Linguistics Aspects of Translation)

.

via:
..
.
..
.
.
Posted in Mind | Leave a comment

O Amor é o Homem Inacabado – Éluard

Todas as árvores com todos os ramos com todas
                                                             [as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
                                                          [amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
                                                             [obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
                                                          [lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os
                                                   [olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.

Paul Eluard, in “Algumas das Palavras”
Tradução de António Ramos Rosa

tumblr_mjiygwo15O1qe0lqqo1_1280

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

Posted in Mind | Leave a comment

Symbol

Charles S.Peirce wrote about the symbol:
“By a symbol I mean a representation which upon being presented to the mind – without any resemblance to its object and without any reference to a previous convention – calls up a concept…
A symbol is subject to three conditions. 1st it must represent an object or informed and representable thing. Second it must be a manifestation of logos, or represented and realizable form. Third it must be translatable into another language or system of symbols.” (Harvard Lectures on the Logic of Science)

che.

.

.

.

.

.

Posted in Mind | Leave a comment

Vadim Mahora vs Kölner Dom

Vadim Mahora and Vitali Raskalovym at the

Cologne Cathedral

0_81be0_428507b3_orig0_81bfa_dabc2247_orig 0_81bfb_6d5b48e1_orig

On one of the two towers of the cathedral is publicly available observation deck. But this observation camera shoot is absolutely impossible because of the mesh fencing. It was the most horrible observation that I’ve seen. So we took the chance to sneak a nearby tower, where access is closed to tourists. In addition, we were lucky again, a small part of the building was in scaffolding.

0_81bfc_56aaa8b5_orig 0_81bfe_583a86c2_orig

Inside the tower there was a lot of statues, as the cathedral is under construction

0_81bfd_f4f587d9_orig 0_81bff_68fda312_orig 0_81c00_5562ed1b_orig 0_81c01_1085c7cb_orig 0_81c02_42980130_orig

via:

http://dedmaxopka.livejournal.com/71558.html

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

..

.

.

Posted in Body | Leave a comment

Barthes e a Câmara Clara

d5ac8c4b73c4b3f065b92a2e511a83ec_biggerNa Foto-retrato quatro imaginários se cruzam: “Diante da objetiva, sou, ao mesmo tempo, aquele que eu me julgo, aquele que eu gostaria que me julgassem, aquele que o fotógrafo me julga e aquele de que ele se serve para exibir sua arte”.

Posted in Mind | Leave a comment